segunda-feira, 23 de março de 2009

Espírito Penitencial

Por: DOM EURICO DOS SANTOS VELOSO
ARCEBISPO METROPOLITANO DE JUIZ DE FORA, MG.

Falar em penitência nos dias de hoje soa anacrônico, coisa do passado. Depois de mais de três séculos do domínio da razão já chegáramos a um estágio da civilização, a uma sociedade científicamente estruturada.

O desenvolvimento e o progresso geraram uma riqueza incomensurável e a ciência desvenda o infinito do espaço e desce às profundezas do microcosmo. O mistério da vida é pesquisado e novas descobertas prolongam a vida humana na superação das doenças. O conhecimento se universaliza nas redes da internet.

Como se falar em penitência diante de uma consciência de vitalidade e de poder? Isto é coisa do passado, quando se sentia a fragilidade do ser humano e a inconsistência dos recursos.

Mas, eis que, quase repentinamente, esta civilização que se moldava pelo ganho, tudo transformado em mercadoria e que desconhece a proximidade do pobre que está a seu lado em multidão, desaba.

Quando éramos criança, gostávamos de fazer bolas soprando a água com sabão e disputávamos sobre quem as fazia maiores a refletir na sua esfera as cores dissociadas da luz, as cores do arco íris. E vendo-as navegar ao vento no pequeno espaço torcíamos para que não se arrebentassem logo.

Assim também o mundo inteiro da economia. Era uma imensa bola de sabão que pensávamos definitiva. Móvel de todo o progresso e do desenvolvimento, sustentava todo o custo das experiências e avanços da técnica e da ciência. Todo o bem-estar social. E, de hora para outra, é a crise.

E vamos ter de conviver com ela, por quanto tempo? E com suas mazelas de queda da produção, de quebras, falências e de desemprego. E tudo isso junto com a desonestidade e a malícia do coração. Vejam: o socorro com o dinheiro público, deslavadamente vai para o bolso de uns poucos como gratificação em empresa falida!

Diante do quadro que já bate às nossas portas, sentimos a efemeridade das construções do homem. Não que não haja soluções de reconstrução. Mas estas serão sempre marcadas pela transitoriedade, pois limitada é a razão humana, apesar de sua constante evolução, o que por si só comprova sua limitação.

O fundamento do espírito penitencial é a consciência de que não somos absolutos e onipotentes. Que reside em nosso coração a raiz do Mal, o orgulho e a soberba herdados de nossos primeiros pais que tentaram ser iguais a Deus, como nos relata o Livro sagrado.

A reconciliação do homem passa pela humilhação de Cristo, que, sendo Deus rebaixou-se à condição mortal e se entregou ao sacrifício e à morte. Sua paixão redime o homem e só ela é suficiente para a salvação.

Mas, esta redenção, oferecida a toda humanidade, respeita a nossa liberdade.

Exige a conversão, a renúncia ao pecado e às concupiscências que a ele conduzem. Um esforço para erradicar de nosso coração, dos coração da humanidade, a raiz do Mal.

Este esforço é penoso. Como o do próprio Cristo, que tendo assumido a nossa condição, teve de passar pelo sofrimento e pela cruz. Esse caminho é também o nosso se quisermos segui-lo

Como ensina São Paulo, temos que suprir o que falta ao sacrifício de Cristo, isto é, pelo sofrimento na luta contra nossas paixões e vícios.

Na carta ao Coríntios, o mesmo Apóstolo nos concita a este combate, exemplificando com os que lutam nos estágios. Eles batalham, de tudo se abstêm para conseguirem uma glória passageira, de alguns minutos no topo. Nós, porém, buscamos a vida eterna.

Pela penitência, nascida do coração e santificada pela união mística com o sofrimento redentor, podemos caminhar na direção da pátria definitiva.

No último capítulo do pequeno livro da Imitação de Cristo, livro II, o autor nos mostra que não há outra via para a realização em nós do mistério da redenção, senão o “caminho real da santa cruz.

Por mais avançada que seja a civilização ela nunca será perfeita. Temos que dela usar, mas nela não por a esperança. A nossa esperança, como a de todo o Universo, só pode se concretizar quando tudo subordinarmos ao império de Cristo (Rom 8,18-25), que, por sua morte destruiu o pecado e em Quem triunfaremos pela sua Ressurreição.

(Texto Extraído do site www.catequisar.com.br)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sua opinião é muito importante para mim... Caso você não tenha uma conta do Google e fizer seu comentário de forma anônima, não esqueça de deixar seu nome e seu e-mail para que eu possa entrar em contato com você!

PAZ & BEM!!!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...