domingo, 4 de março de 2012

A Oração de Jesus

A ORAÇÃO DE JESUS NO GETSÊMANI[1]

(Lc 22,39-46)

O texto do Evangelho: Lucas 11,39-46[2]

‘“Jesus saiu e, como de costume, foi para o monte das Oliveiras. Os discípulos o acompanharam. Chegando ao lugar, Jesus lhes disse: “Orai para não cairdes em tentação”. Então afastou-se dali, à distância de um arremesso de pedra, e, de joelhos, começou a orar. “Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua!” Apareceu-lhe um anjo do céu, que o fortalecia. Entrando em agonia, Jesus orava com mais insistência. Seu suor tornou-se como gotas de sangue que caíam no chão. Levantando-se da oração, Jesus foi para junto dos discípulos e encontrou-os dormindo, de tanta tristeza. E perguntou-lhes: “Por que estais dormindo? Levantai-vos e orai, para não cairdes em tentação”’.

Nesta página do Evangelho de Lucas recorre muitas vezes o verbo rezar: “rezai para não cair em tentação”, “Jesus, ajoelhando-se, rezava”, “tomado pela angústia, rezava mais intensamente”, “levantando-se da oração”. E Jesus conclui repetindo aos discípulos: “Levantai-vos e rezai, para não cairdes em tentação”.

Esta passagem está enquadrada entre duas exortações de Jesus quase idênticas e no centro está sua oração pessoal. Esta oração é apresentada no seu começo: “Jesus, ajoelhando-se, rezava”; no momento culminante: “tomado pela angústia, rezava mais intensamente”; e no final: “se levantou da oração”.

Outro tema dominante é o tema da tentação, repetido duas vezes: “rezai, para não cairdes em tentação”. Perguntemo-nos no que consista esta tentação e que relação exista entre a tentação e a oração.

 

Tentação e oração

Por tentação não se entende, ao menos imediatamente, o impulso de fazer o mal. É algo muito mais sutil, mais dramático e perigoso: é a tentação de fugir das próprias responsabilidades, o medo de decidir-se, o medo de olhar de frente uma realidade que exige uma decisão pessoal; é o medo de afrontar os problemas da vida, da comunidade, de nossa sociedade.

É a tentação da fuga do real, de fechar os olhos, de esconder-se, de fingir não ver e não sentir para não ficar comprometido: a tentação da preguiça, do medo de não lançar-se, a tentação que quer impedir-nos de corresponder àquilo que Deus, a Igreja, o mundo nos pede realizar.

Assim, a exortação de orar para não entrar em tentação significa: rezem para não entrar nesta atmosfera ‘ de comprometimentos’, de comodidade, de vileza, de fuga e de desinteresse, onde amadurece a eleição de não escolher, a decisão de não decidir, a fuga das responsabilidades. Esta situação é exemplificada no texto do evangelho por aquilo que fazem os apóstolos: dormem pela tristeza, dormem para não ver.

Existem outros episódios bíblicos que sublinham a fuga da realidade. O sacerdote e o levita, que passando perto do homem ferido no caminho entre Jerusalém e Jericó, fecham os olhos e seguem adiante, fogem da petição de responsabilidade. O profeta Elias, corajoso, temerário e impávido, também ficou envolvido nesta tentação de desinteresse: no primeiro livro dos Reis se narra que “atemorizado, se levantou e se foi para salvar-se” (1Rs 19,3ss). E, no entanto, Elias havia sabido enfrentar, sozinho, sobre o monte Carmelo, os 450 profetas de Baal: parecia que não tivesse medo de ninguém, mas por um momento é ferrado por esta tentação e foge da realidade. É também a tentação do profeta Jonas, que foge porque não quer enfrentar sua tarefa de profeta. É a tentação que prende a cada um de nós, quando fechamos os olhos e os ouvidos para não ver e não sentir as necessidades de quem nos rodeiam. Desinteressar-nos, afastar-nos daquilo que nos chama a lançar-nos com coragem.

A exortação de Jesus de rezar para não entrar em tentação, nos faz entender assim que a oração não é fuga, não é virar as costas às responsabilidades, nem é refugiar-se na privacidade: a oração é olhar de frente a tentação, o medo, a responsabilidade. A oração é fazer como o samaritano, que diante do homem ferido pára e se inclina sobre ele. A oração é audácia que enfrenta a decisão importante. Esta é a relação que o texto apresenta entre oração e tentação.

 

Corpo e oração

“Jesus, ajoelhando-se, rezava”. O ajoelhar-se de Jesus não é usual: no templo ordinariamente se rezava de pé. Rezar de joelhos significa um momento particular de intensidade, e isto retorna algumas outras vezes na Bíblia. Ao narrar a morte de Estevão, o autor dos Atos dos Apóstolos diz: “dobrou os joelhos e gritou forte: Senhor não imputa-lhes este pecado” (At 7,60). No instante dramático e decisivo de sua morte, Estevão se ajoelha para rezar.

A descrição de Jesus ajoelhado nos diz, porém, outra coisa importante: que existe uma relação entre o corpo e a oração, entre o gesto e a oração que deve viver-se e reencontrar-se. Algumas formas sóbrias da relação entre corpo e oração são as que expressamos na liturgia, colocando-nos de pé, ajoelhando-nos, sentando-nos e levantando os braços para a oração do Pai nosso.

Mas é importante que cada um de nós, em sua oração particular, encontre e expresse de modo pessoal a relação entre oração e gesto, oração e corpo. Jesus vive esta relação: ‘ajoelhando-se, rezava’, e diz: ‘Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Mas não se faça minha, mas a tua vontade’.

Pai, se queres...

A oração de Jesus contempla duas coisas fundamentais: a exclamação “Pai”, que é a atitude de total confiança naquele que o ama como Filho, e a expressão de desejos profundos e vitais: “se queres, afasta de mim este cálice”, “não a minha, mas a tua vontade”. Jesus deixa emergir em si dois desejos objetivamente contrastantes, duas realidades conflitantes das quais não tem medo porque em sua oração se unificam no pedido “seja feita a tua vontade”.

Rezar no momento da prova quer dizer deixar emergir a angústia, o medo, o temor daquilo que temos diante de nós e que se opõe ao desejo que temos de estar disponíveis, de decidir-nos, de enfrentar a realidade. Na oração esta visão, que está dentre do nós, se unifica e nos dispõe para a luta e para a decisão corajosa. Aquilo que há em nós de tumultuosamente em conflito e que por isso nos impede de agir, mover-nos, nos paralisa no medo, nos leva a prorrogar no tempo as decisões, a buscar desculpas sem fim... todo este conflito interior, se o consideramos bem na oração, nos unifica e nos permite de retomar nas mãos a capacidade de decidir-nos e de dizer: “ seja feita a tua vontade”, “realize-se em mim aquilo ao qual sou chamado”.

O texto do evangelho diz que a oração de abandono e de unificação de Jesus é expressa num estado de angústia e agonia. Vem à mente a palavra de Pascal: “Jesus está em agonia até o fim do mundo, na sua Igreja, nos homens”. Podemos, pois, unir-nos à agonia, à angústia e ao desconforto de todos os homens que no mundo, vizinhos ou distantes de nós, sofrem e são submetidos à prova. Jesus, na sua prova, vence a prova por nós, até o fim do mundo; na sua angústia, é derrotada a nossa. O medo de decidir-nos, de lançar-nos, de perder a vida pelos irmãos, é vencido pela sua oração na agonia. Jesus quis manifestar sua agonia para estar perto de nós até as últimas conseqüências. Não temeu que aparecessem sua debilidade e a sua fragilidade para ensinar-nos a não ter medo da nossa; a não ter medo sequer de que essa se manifeste e seja conhecida, porque nesta nossa fragilidade age a potência de Deus.

 

Oração e vida

Ao pensar em Jesus que reza ao Pai ajoelhado, totalmente abandonado ao Pai, que deixa emergir os desejos mais profundos, que entra na agonia e a vence, perguntemo-nos como rezamos diante das situações decisivas da vida. Ao reler este texto nos podemos fazer três perguntas:

1. Minha oração é fuga ou é contemplação corajosa daquilo que Deus me pede?

2. Quando rezo, unifico meus desejos e os conflitos interiores na petição da vontade de Deus que me faz forte ante a prova?

3. Sinto a força de Cristo que reza em mim, a sua vitória sobre a angústia e o medo? Sinto que ele é minha força e a minha vitória?

Para responder às perguntas peçamos ao Senhor que nos ensine a rezar assim: “Fazei que na nossa oração vençamos todo medo que nos impede de decidir-nos por ti, pelos irmãos, por aquilo que nos custa, por aquilo que nos assusta. Fazei que a nossa oração seja uma vitória da nossa fé e que nela triunfe a tua potência, que venceu o medo da morte”.


[1] In: MARTINI, Carlo Maria. Itinerário de Oración. Bogotá: Ed. Paulinas, 1986, tradução livre de Frei João Carlos Karling, ofm (jckarling@gmail.com), para uso exclusivo em retiros. O mesmo comentário foi reeditado em Carlo Maria Martini, Qualcosa de così personale. Meditazioni sulla preghiera, Milano, Mondadori 2009, p. 45-49. Faço aqui uma junção dos dois textos. Eles são praticamente iguais.

[2] Versão da Bíblia da CNBB, http://www.bibliacatolica.com.br/02/49/22.php , acesso dia 25.04.2010.

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