quinta-feira, 7 de junho de 2012

A Eucaristia

(Homilia proferida pelo Frei João Carlos, na Missa de Corpus Christi, na Comunidade Santa Rita de Cássia, no dia 06/06/2012)

100_1486Ao manifestarmos o nosso afeto, admiração, o nosso amor para com alguém, muitas vezes o expressamos por meio de um presente, carregado de afeto. Quando essa pessoa nos é mais querida, com tanto maior cordialidade e generosidade a presenteamos. A Eucaristia vem a ser o grande presente, o presente, de Jesus para comigo\conosco\humanidade. É um presente todo particular; não encontrou nada mais querido e amável do que a si mesmo, para doar-se a nós; e o fez por meio de sinais sensíveis, ordinários e muito significativos, o pão e o vinho.

Jesus instituiu a Eucaristia num contexto de fracasso, fracasso geral, devido a traição de Judas. E, logo logo, se encontrará só ante a Cruz, abandonado pelo grupo dos mais íntimos e no silêncio absoluto do Pai. Enquanto Jesus se entrega a si mesmo, experimenta a solidão mais absoluta. Neste diálogo do amor, na sua experiência de não reciprocidade, Jesus se dá, se entrega. Também hoje ele se deixa estar em nossas mãos, coração, relações, fraternidade; é uma entrega total de si, realiza a salvação. Jesus não nos salva somente com o que realiza, senão também com o que nós, pessoal e comunitariamente, assimilamos d’Ele. Sua entrega por nós é vida para nós.

E nós? Nós não nos realizamos pelo que pensamos ou falamos que fazemos, por nossos sonhos de grandeza e até pelo que fazemos no dia a dia. Formamo-nos por aquilo que nos é dado... o cotidiano da vida, no qual nos alegramos e padecemos. São acontecimentos que vem ao nosso encontro e nos surpreendem. É o que nos sucede que nos forma. De fato, somos formados pelos acontecimentos por uma obediência nem sempre compreensível a exemplo de Cristo que se entregou nas mãos do Pai.

Nós, como Jesus, também somos convidados a “entregamo-nos...”. A Eucaristia é este entregar-se. Quando o Senhor nos diz: “fazei isto em memória de mim”, não nos convida a meramente repetir um rito, senão que encarnemos a sua vida em nossa vida. Se não o fizermos, caímos no ritualismo... O “fazei...” significa repetir com nossa vida, gesto, atitudes, relações a vida de Jesus. Celebrar a Eucaristia, fazer Eucaristia, fazer memória do que Jesus fez, é reproduzir sua vida.

Hoje encontramos o sinal do pão e do vinho... sinais da presença de Deus. O cristianismo é uma religião de sinais. A Deus não vamos diretamente, pelo perigo que corremos de criá-lo à nossa imagem... e, somos muito hábeis em fazê-lo. Para Francisco e Clara há uma relação direta entre Encarnação e Eucaristia... Em “Greccio” fala com insistência ver... referindo-se à visão interior, que passo a passo cresce na pessoa mediante a fé e a experiência de Deus. Na primeira Admoestação de Francisco lemos: “Eis que se humilha diariamente, como quando veio do trono real (Sb 18,15) ao útero da Virgem; vem diariamente a nós ele mesmo aparecendo humilde; desce todos os dias do seio do Pai (cfr. Jo 6,38; 1,18) sobre o altar nas mãos do sacerdote. E como se mostrou aos santos apóstolos em carne verdadeira, assim também a nós agora no pão sagrado. E como eles com a visão de sua carne só viam a carne dele, mas criam que era Deus contemplando com olhos espirituais; assim também nós, vendo o pão e o vinho com os olhos corporais, vejamos e creiamos firmemente que é seu santíssimo corpo e sangue vivo e verdadeiro (Adm1,16-21). O texto é claro: Cristo é o mesmo, ainda que com veste ou rosto mudado. Ou cremos e seremos transfigurados, ou reduzimos a Eucaristia a um mero rito que nada comunica e não mudamos...

Somos chamados a ser como Maria... Se na espiritualidade nossa a Eucaristia é como a encarnação, somos todos chamados a ser Maria, pessoas capazes de acolher, acima de tudo, o Espírito, dispostas a dar-lhe carne com a vida! E, se a palavra de Deus que rezamos não se faz carne em nós, ela não é palavra de Deus. Assim como Maria deu carne ao Filho de Deus, de igual modo hoje nós tornamos Jesus visível mediante nossa carne. Nos fazemos Maria, damos à luz, geramos a vida, não abortamos o Verbo.

Noutro texto também é dito que é o Espírito, eu habita em nós, que recebe o Corpo e Sangue do Senhor. Assim como Maria, o acolhemos e criamos espaço para Ele, dentro de nós. Precisamos criar um vazio interior, temos que acalentar sua presença como se acalenta um filho ainda ao ventre, mediante os desejos, para logo pari-lo e dá-lo ao mundo. E, irmãos\ãs, é a Eucaristia que celebramos diariamente em nossa vida, que nos leva a esta nova Encarnação. Eis a maravilha da nossa espiritualidade: Deus se encarna, não para redimir-nos do pecado, senão para nos tornar divinos.

Irmãos\ãs, temos a vida eterna em nós. Ele nos habita... e quando nosso corpo desaparecer e nos encontrarmos na eternidade, permanecerá o que tivermos guardado dentro de nós e gerado no amor. Esta é a nossa contemplação cristã! Isto é, viver a Eucaristia. Cada vez que na Eucaristia escutarmos “fazei isto em memória de mim...” voltamos a pensar no caminho da pobreza progressiva, da RESTITUIÇÃO PLENA, no caminho, com Cristo.

Deixemo-nos transfigurar pelo futuro, que em nós está presente – a vida eterna está em nós – para sermos presença profética aos homens e mulheres de hoje, que querem ver Deus. Irmãos\ãs: Deus está presente! Temos que cuidá-lo, fecundá-lo e nos transformar NELE!

(Baseado em Bini, Giacomo. Escuchad Hermanas).

 

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