1

1

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Envelhecer com Sabedoria

Dom Aloísio Card. Lorscheider

1. Bela postura é a de envelhecer e envelhecer com sabedoria! É preciso saber envelhecer. A idade mais bela não é a idade da criança, do adolescente ou do jovem ou do adulto ou do idoso. Não. A idade mais bela é aquela em que estamos. O tempo, que vivermos, é um grande tesouro. Sem o tempo, nada há de grande, nada de profundo. Nem a amizade. Nem a fidelidade. Devemos ver o tempo com muita naturalidade. Sabemos que ele passa. No dia em que somos concebidos, já começa o nosso envelhecimento. O tempo passa. Só a eternidade não passa. O tempo, à nossa disposição, deve ser bem empregado, sem ânsia nem aflição, para o serviço de Deus e do próximo. É preciso dar tempo ao tempo. A caminhada que cada um faz no tempo, é diferente.

2. A sabedoria é dom, dom do divino Espírito Santo. Ele nos faz saborear as realidades da vida. Faz com que estas realidades tenham bom gosto, sejam saborosas. Envelhecer com sabedoria é viver com qualidade de vida. É envelhecer de tal forma que ser idoso seja gostoso para nós. “Quão bela é a sabedoria nas pessoas de idade avançada, e a inteligência e a prudência nas pessoas nobres! A experiência consumada é a coroa dos anciãos” (Eclo 25,7-8).

3. A sabedoria confere distância, mas não uma distância de afastamento do mundo. Permite, ao ser humano, elevar-se para além das realidades, sem menosprezá-las. Faz-nos ver o mundo com os olhos e com o coração de Deus! Faz-nos dizer “sim” a Deus em nossas limitações, ao nosso passado, com as suas desilusões, deserções e pecados. “Deus concorre em tudo para o bem dos que O amam” (Rm 8,28). Da força conciliadora desta sabedoria florescem, então, bondade, paciência, compreensão. É o precioso ornamento da ancianidade, que é o amor. Em todas as idades, o Senhor pede-nos que façamos render os nossos talentos. O serviço do Evangelho não é questão de idade.

4. Na medida em que nos tornamos mais idosos, a grande tentação não é só medir o tempo. É também referir-nos constantemente ao passado. “No meu tempo” é a expressão mais freqüente em nossa boca e em nosso espírito. Aquele, sim, era tempo bom! Acontece, porém, que também naquele nosso tempo havia pessoas idosas que, igualmente, lembravam os bons tempos que tinham vivido e, assim, elas não eram muito entusiastas do nosso tempo, como nós, hoje, não somos muito entusiastas do tempo atual. O melhor é não viver da saudade do passado. O melhor é olhar o presente de frente. Já João Paulo II lembrava-nos na Encíclica “Tertio Millennio Adveniente”, duc in altum! Entre mar à dentro e lance as suas redes! Também nós, idosos, devemos começar sempre de novo. Até agora nada fizemos, irmãos, vamos começar de novo, dizia São Francisco de Assis (Celano I,103). Hoje é o primeiro dia do restante de nossa vida. Demos do nosso tempo a Deus e aos outros! É importante não perder o deslumbramento diante das coisas boas que a evolução do mundo nos trouxe e nos oferece. É preciso sentir-se sempre alegre e otimista!

5. No passado, tinha-se grande respeito pelas pessoas idosas. Hoje, ainda há povos onde os idosos são estimados e valorizados. Mas, entre nós, em nossa sociedade, devido à mentalidade que coloca, em primeiro lugar, a utilidade imediata e a produtividade do ser humano, o idoso é visto mais como embaraço, um desmancha-prazeres. Diante de tal situação, as pessoas idosas chegam a se perguntar sobre a utilidade de sua vida. E não só elas, mas a própria sociedade tem desejo de se desfazer das pessoas idosas. E aí vem a eutanásia. Façamo-los morrer suavemente!...

6. Nós, porém, temos que recuperar a justa perspectiva da vida em seu conjunto. E a justa perspectiva é que coloquemos a vida na perspectiva da eternidade. Aliás, todo o tempo deve sempre ser visto na perspectiva da eternidade. A velhice não é mais do que uma etapa nas várias fases da vida. A velhice tem também o seu papel na caminhada rumo à eternidade. A própria sociedade só poderá beneficiar-se desta maturação da vida.

Os idosos ajudam a contemplar, com mais sabedoria, os acontecimentos terrenos. Pelas vicissitudes vividas, tornaram-se mais experimentados e amadurecidos. Os idosos guardam uma memória coletiva e, por isso, são capazes de interpretar mais exatamente o conjunto de idéias e valores humanos que mantêm e guiam a convivência social. Excluir os idosos é o mesmo que rejeitar o passado, onde penetram as raízes do presente, e isto em nome de uma modernidade sem memória. Os idosos, devido à sua experiência de vida, são capazes de propor conselhos e ensinamentos preciosos aos jovens. Todas as idades devem ser solidárias entre si, tanto mais que todas as idades se enriquecem. É só pensar nos dons e carismas que cada pessoa possui. Não é só o futuro que é eterno. Também o passado faz parte da eternidade. O que já aconteceu, não voltará a aparecer, de repente, assim como era... Voltará como idéia, não virá novamente como ele mesmo.

7. Li, há pouco tempo atrás, que a velhice é o domingo da vida. A vida humana é um processo. Tem seus altos e baixos, mas ela vai acumulando experiências, sentimentos, vivências que enriquecem a caminhada e somam-se os êxitos e fracassos como estímulo para novas conquistas. Deus Criador não nos concede este tempo de vida só para nos ver sofrendo. Ao contrário, Deus dá mais vida a muitos para que ajudem o mundo jovem a ser adulto, de maneira que se sintam realizados e felizes. “Quem investe nos jovens, investe no futuro do mundo”. O idoso não se pode entregar. Vestir o pijama, sentar-se em sua espreguiçadeira, ler jornal ou TV o dia todo? O idoso necessita expandir-se criativamente. Ele está passando para uma etapa de vida plena de sabedoria existencial e pode dar muito ainda à sociedade. O idoso não pode sentir a sua vida sem sentido. Esgotada certa força de trabalho, ele não é um pária. A aposentadoria não é um favor ou uma esmola. Ela é uma obrigação da sociedade para quem tanto a serviu.

Na velhice, temos que cuidar para não perder a nossa identidade. Somos gente, e continuamos a ser gente. O idoso não deveria ser privado de todo o trabalho. Antes, pelo contrário. Deveria ter uma ocupação útil, dentro de suas forças, já mais fracas. Há muitas maneiras de envelhecer, mas não podemos abdicar das nossas capacidades de ser e de agir. A nossa vida não pode se tornar uma espécie de morte. O ideal é que a pessoa morra vivendo e não viva morrendo, entregando-se a cada instante ao tédio e à morte. É necessário “curtir”, cada instante, extraindo dele todo o suco da vida. A nossa existência pode ser rica e apaixonante, também quando já idoso. É preciso saber recomeçar sempre de novo.

8. A velhice é tempo de contemplação, de silêncio, de despojamento, de oração, de aperfeiçoamento do domínio de nós mesmos.

8.1. Tempo de contemplação

A velhice não pode deixar de ser tempo de deslumbramento. Com o deslumbramento, a contemplação. Pelos anos vividos, amadurecemos. Armazenamos tantos bens dentro de nós! É preciso contemplá-los, de modo especial, as verdades da nossa fé. Se o fizermos, o tempo nos parecerá curto, porque há muita coisa para aprofundar contemplativamente em nosso íntimo. Eu, nas minhas visitas pastorais às paróquias, visitando casas de pobres e de doentes, sempre animava as pessoas idosas a escreverem as suas memórias. Eu lhes dizia: “Vocês têm muita coisa a dizer para os jovens de hoje. Vocês passaram por várias fazes. E o mundo, nestes 70/80 anos, mudou muito. Conhecer estas mudanças e como vocês se comportaram, é muito importante para os mais jovens. É bom os jovens saberem como se chegou ao tempo atual”. Isto eu fazia para que sentissem que não eram inúteis ou que estivessem sobrando.

8.2. Tempo de silêncio

A idade do idoso é também tempo de silêncio. Santa Teresa de Ávila sempre insistia no recolhimento, no silêncio, sobretudo, interior. Quando mais moços, éramos, por natureza e idade, mais agitados. Um pouco mais avançados em idades, somos mais calmos e tranqüilos. É possível interiorizar tanta coisa da nossa vida e ser gratos a Deus por tanta bondade e tantas bonitas oportunidades de nossa vida.

8.3. Tempo de despojamento

A velhice, domingo da vida, é uma bênção. Aos poucos, desapegamo-nos de muitas futilidades, de muitos pormenores, de rancores, de lamúrias, de sofrimentos. É o tempo de perdão. Sentimos mais profundamente a nossa kénose, a necessidade de nos despojarmos. Aprendemos a domesticar o tempo. Não zombamos dele. Não apostamos corrida com ele. Procuramos viver com o tempo, como se fosse alguém que respeitamos, de quem cuidamos, que amamos. É preciso caminhar com ele, dia após dia, sem destratá-lo, serenamente.

Com o crescer dos anos, corremos o risco de nos tornarmos um bloco de granito. Duros. Impermeáveis. Imutáveis. Não temos mais nada a aprender dos jovens. Fechamo-nos. Nossas idéias, como ficam? Os nossos gostos? As pessoas amigas? É preciso transformar o bloco de granito em bloco de cristal. Devemos ser transparentes. Envelhecer é questão de transparência!

8.4. Tempo de oração

A oração é a missão especial do idoso. Ele tem mais tempo disponível. Se não orarmos, a nossa idade avançada perdeu o seu sentido. Necessitamos de idosos que rezam. A velhice é o tempo para isso. E é bom rejuvenescermos pela oração. A oração rejuvenesce o coração. São Paulo lembra-nos que “o homem exterior, se caminha para a sua ruína, não impede que o homem interior se renove dia-a-dia” (2 Cor 4,16). Se não renovarmos o homem interior, corremos o risco de envelhecermos totalmente. É claro que se precisa evitar a rotina da oração. Aqui também precisamos ser criativos. Devemos fazer a oração brotar do nosso coração, novinha como se nunca tivesse existido.

Orar é também se pôr à escuta de Deus. Arriscamos a ficar surdos não só física, mas também espiritualmente. É necessário escutar a Deus e escutar os outros. É claro que não vamos confundir oração com orações. A oração é um estado de ser e não uma atividade entre muitas outras. E não haverá oração, onde não houver silêncio. Silêncio povoado por Deus. Silêncio feito de atenção a Deus e aos outros. Silêncio positivo e criador.

A oração, além do mais, é um modo e um meio para sair da solidão, maior ameaça da nossa idade avançada. Ela reúne aos outros, reunindo a Deus. É uma força que pedimos e que damos uns aos outros. Força misteriosa, mas atuante. Está nela o segredo da serenidade, o segredo da alegria, o segredo de um coração sempre jovem. A oração é um caminho da juventude do coração, da juventude do homem interior.

“Introíbo ad altare Dei – Ad Deum qui laetificat iuventutem meam”. Era a antífona do Salmo 42, que rezávamos ao pé do altar, iniciando a Eucaristia. E já que mencionamos a Eucaristia, ela é também um valor muito grande para nós, que já estamos em uma idade mais avançada. Enquanto possível, não deixar a Eucaristia. Visitar o Santíssimo Sacramento. Trazer Jesus Eucarístico muito presente dentro de nós. Deveríamos ser adoradores perpétuos do Santíssimo Sacramento!

8.5. Domínio de nós mesmos

Um último ponto a considerar é ver como nos comportamos: como idosos impacientes, egoístas, murmuradores, ou antes, como idosos puros de coração, pacientes, tolerantes, desapegados, com espírito de sacrifício? Criar em nós um olhar novo e limpo... Sempre alegres, nunca irritados com a vida. Gratos ao bom Deus – e por vezes, aos outros, sobretudo aos médicos – pela idade que alcançamos. Assim seja!

idosos_felizes

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sua opinião é muito importante para mim... Caso você não tenha uma conta do Google e fizer seu comentário de forma anônima, não esqueça de deixar seu nome e seu e-mail para que eu possa entrar em contato com você!

PAZ & BEM!!!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...