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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Lembranças e Reminicências

 

Vou contar um pouco da minha história

Com um recorte eclesial

São reminiscências e lembranças

Sem pretensão de ser original

Apenas vou por no papel

Fatos da vida de um fiel

Em que ser “Católico” foi natural.

 

Nasci numa família católica

Lá num distante rincão

Meus pais freqüentavam a igreja

E com muita fé e devoção

Meu pai respondia a missa em latim

Pois ele era “Sacristão” e enfim

Rezava na igreja, fazia encomendação.

 

Meus avôs maternos e paternos

Doaram o terreno prá “Capela”

Que foi construída sobre a divisa

Evitando assim possível querela...

Eram os “Fabriqueiros” da comunidade

Buscavam o Padre na cidade

Para ministrar os sacramentos à clientela.

 

Com forte tradição portuguesa

De uma religiosidade de devoção

Na década de mil novecentos e cinqüenta

Bem antes do Concílio, então

Missa de tempos em tempos, afinal

Mas o povo tem sua prece dominical:

Era a reza do terço sua principal oração.

 

Era a reza do terço nos enterros

No Sétimo e Trigésimo dia também.

Servia para consolar a família

E pedir descanso eterno no além

“Capelão” puxava Pai Nosso - Ave Maria

E o povo todo com fé respondia

E não se excluía ninguém.

 

 

No início dos anos sessenta

Eu já sabia ler e escrever, em fim

Meu pai começa a me ensinar

A responder a missa em latim

E puxar o terço, ser “resadeiro”

Ele queria fazer seu herdeiro

E foi passando os “macetes” prá mim.

 

Só que isto durou pouco tempo

E já mudou todo o nosso plano

Hoje posso contar com segurança

Para mim não foi nenhum desengano.

A missa passa a ser em português

E o povo sente que chegou a sua vez

Com o Segundo Concílio do Vaticano.

 

Lembro-me bem daquele tempo

Pois muita novidade surgia

O padre de frente para o povo

Equipes de canto e de liturgia.

A juventude toda se animava

A comunidade em peso cantava

Só algum mais conservador resistia.

 

Capela Nossa Senhora de Lourdes

Linha Alta de Cima é a Localidade

Pertencia à paróquia de Cortado

Local bem distante da cidade

Sobradinho era a Área que pertencia

E à diocese de Santa Maria

Tendo à frente Dom Ivo, Bispo de qualidade.

 

Lá em casa nós não tínhamos Bíblia

Mas tínhamos a “História Sagrada”

E alguns textos de “Devoção Mariana”

Que eram usados pela antiga moçada

Papai nos incentivava a ler

E as coisas da Igreja aprender

Para ter vida digna e honrada.

 

A primeira Bíblia que tive contato

Foi a que lá na capela se lia

Era a Bíblia completa e capa dura

Aquela editada pela Ave Maria.

O meu primeiro Novo Testamento

O recebi de presente, que fomento!

A comunidade de “Taizè” que distribuía.

 

Com a morte prematura do papai

Veja como a coisa acontece

Assumo junto com a mãe a família

E a minha responsabilidade já cresce

Iniciamos grupo de jovens, nossa idade

E também as rezas da comunidade

E um novo tempo de Igreja amanhece.

 

Isto me abriu novos horizontes

Pois participava da vida eclesial

Ia às reuniões lá da Paróquia

E também da Área Pastoral

Na “Escola Paulo VI” em Santa Maria

Muitas novidades eu aprendia

Naquela Escola pra líder e Diaconal.

 

Participei da preparação de Puebla

Sem ter tão claro na consciência

Foi nas reuniões da Área Pastoral

Que foi feito tal experiência

Ajudamos a elaborar, afinal

O texto do Documento Oficial

Que o Brasil levou prá III Conferência.

 

Chegou o tempo oportuno

E eu quis voltar a estudar

Procurei os freis franciscanos

Que eram os responsáveis do lugar

Após muita oração, conversa e consulta

Surge mais uma vocação adulta

Para os caminhos de Cristo trilhar.

 

Foram sete longos anos

De vida de seminário menor

Em escolas Públicas e Particulares

Nas várias cidades do interior

Fui descobrindo um jeito novo

De amar e respeitar mais o povo

Ao ver, ouvir e sentir sua dor.

 

Aqui já faço uma bonita parada

E acho que a história não engana

Fiz minha definitiva opção de vida

Assumindo a Vida Religiosa Franciscana

Com sua característica de humildade

Sem jamais esquecer a minha localidade:

Do “Povo Humirdi”, da alegria que irmana.

 

Foi em meados dos anos oitenta

Passo por grande ebulição

Vou morar na Capital do Estado

Com toda aquela agitação

Poder estudar na Universidade...

Quando então vejo falar de verdade

Em Filosofia e Teologia da Libertação.

 

Contato com o mundo universitário

Abrindo para um pensamento mundial

Estudando idéias e conceitos dos outros

Querendo ser ao máximo original

Por isso aos fins de semana eu ia

Às comunidades e grupos da periferia

Onde as CEBs eram o Modelo Eclesial.

 

Com um olho nas bibliotecas

E o outro na nossa realidade

Eu fui criando consciência

Da como é a vida em Sociedade

Logo percebi que existia

O mundo dos ricos e periferia

Em situação de muita desigualdade.

 

Aquela situação me incomodava

Por onde posso e devo seguir?

Não é natural, nem vontade de Deus

Tanta dor e sofrimento existir.

Nesta busca não estava isolado

Fui descobrindo muitos aliados

Na luta por um novo porvir.

 

Comunidades Eclesiais de Base

Como grande ferramenta de Igreja

Que enfrentava a luta diária

Com muitos parceiros na peleja

Com a leitura bíblica do CEBI

O povão começa a assumir

E não só dizer “Assim seja”.

 

Tem Pastoral da Mulher Pobre

Lutando pela comida diária

Tem a ANAÍ para os índios

E o MST para a Reforma Agrária

Associação de Morador de periferia

E o trabalhador urbano já possuía

A sua Pastoral Operária.

 

Assim cresce o Movimento

Dos que querem transformação

Aumenta o número de encontros,

Marchas, protestos, ocupação...

Parece uma nova primavera

Os aliados do povo superando querela

Na luta por vida e Libertação.

 

Nesta caminhada não são só flores

Mas tem muito sofrimento

A classe dominante está viva

E não dá trégua no enfrentamento

Já se fala até em “Abertura”

Mas os resquícios da “Ditadura”

Fazem prisioneiros e espancamentos.

 

Vou me identificando com o povo

Com sua luta para sobreviver

Aí tem outra espiritualidade

Uma verdadeira mística do crer.

Não é uma piedade alienada

Mas é uma fé viva e encarnada

No enfrentamento de tanto sofrer.

 

Foi assim que conheci as CEBs

Nos idos dos anos oitenta.

Com seus Encontros Intereclesiais;

É o que mais as representa.

O tempo de pressa vai passando

E a conjuntura também vai mudando

E hoje outra CEB se apresenta.

 

Já passou Santo Domingo

A Conferência do “não”

A Cúria Romana veio em peso

Foi verdadeira intervenção

Queriam as Comunidades de Base matar

E os nossos teólogos silenciar

Impedindo o processo de Libertação.

 

Mas o Espírito Santo é bem mais forte

E sopra onde e quando quer.

O trabalho nas bases continuava,

Na maioria liderado por mulher;

Que ignorando a voz dos poderosos

Com mística e projetos audaciosos

Vão tecendo a Igreja que se quer.

 

É uma Igreja Povo de Deus

Com a mística da Diaconia

Organizada em pequenas comunidades

Onde a Palavra de Deus alumia

E o “Sacerdócio Comum dos Fiéis”

Recoloca a relação e os papéis

Entre Povo Fiel e Hierarquia.

 

Não é a inversão da pirâmide

Nem mesmo a luta pelo poder

É o Novo/antigo jeito de ser Igreja

Que não deveria ter deixado de ser

Onde os membros são todos irmãos

E os “Serviços” não geram exclusão,

Mas facilita a todos seu bem viver.

 

Já tivemos a nossa Constituinte

E eleição prá Presidente

Perdemos os primeiros embates

Mas nosso Povo é persistente

Elegemos um Governo Popular

A vida do Povão começa a mudar

Mas não nos damos por contente.

 

Passou a Virada do Milênio

Com muita manchete e fantasia

Porém uma coisa boa sobrou

Que é a questão da Ecologia.

Com o novo milênio a certeza

Que os recursos da Natureza

Estão mais escassos a cada dia.

 

Houve a “Rio Noventa e Dois”

E também a “Rio Mais Vinte”.

Estamos todos no mesmo barco

E não somos meros ouvintes.

O Capitalismo selvagem continua

Com ganância e uma violência crua

Destrói e mata com crueldade e requinte.

 

 

Não falo só de desgraças

Mas também de esperança e vida

A Igreja na América Latina

A todo o Povo Convida

Para superar a miséria e a exclusão

E temos um instrumento nas mãos

Que é o “Documento de Aparecida”.

 

E por falar em Aparecida

Aí temos uma grande novidade

A Igreja toda é convidada a se voltar

Para a vida em Comunidade.

As Comunidades Eclesiais de Base

Hoje estão em nova fase

E são Modelo de Eclesialidade.

 

E ao falar em Modelo de Igreja

Não pense que é tudo bonito

Pois quando o pobre se apresenta

Já logo surge o preconceito e o conflito.

As CEBs hoje têm Cidadania

Vão rezar e cantar no centro, quem diria?

Algum “burguês” incomodando dá em grito.

 

Vai de Norte ao Sul do Brasil

É a Igreja que não pode parar

São Comunidades novas surgindo

Em todo e em qualquer lugar

É preciso novas eclesiologias

E também novas teologias

Todas rumo a Juazeiro no Ceará.

Juazeiro do Norte, Dois mil e Quatorze

O grande Encontro Intereclesial

Este que já é o Décimo Terceiro

De todo o território Nacional

Onde o Povo simples das Comunidades

Participa e é Igreja de verdade

Fazendo valer seu “Múnus Batismal”.

 

 

Sacerdote, Profeta e Rei

Eis a consagração do Batismo

É a Igreja toda de Irmãos e Irmãs

Sem dominação nem clericalismo

Preocupada com a realidade universal

Buscando uma Ecologia Primordial

Aberta ao diálogo e ao universalismo.

 

Para que tudo isso aconteça

É necessário coragem e determinação.

Reinventar a leitura da Bíblia

E do nosso “Mito da Criação”

Pois o nosso “Texto Sagrado”

Hoje pode ser visto lado a lado

Ao “Texto Sagrado” de outra Tradição.

 

Não é preciso perder nossa fé

Nem a originalidade do ser cristão

É só necessária muita humildade

Ao tratarmos do tema da Salvação.

O nosso Deus Poderoso e Fecundo

Manifestou-se em outros povos do mundo

Que somos desafiados a tratá-los de Irmãos.

 

E ao encerrar estes meus versos

Não quero um tom tão grave

Gostaria de deixar registrado

Em uma ou duas frases

Viva o CEBI e o Ecumenismo!

E viva o povo e todo o Profetismo

Das Comunidades Eclesiais de Base.

Hulha Negra, 18 de agosto de 2012.

(Contribuição do nosso querido Amigo Frei João Osmar D’Avila)

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