quinta-feira, 7 de novembro de 2013

A necessidade da psicopedagogia na educação da fé

A psicopedagogia catequética é um caminho de aprofundamento de reflexão para que o/a catequista, como educador da vida e da fé das pessoas que estão na catequese, compreenda melhor o desenvolvimento humano e da fé.

1. A psicopedagogia catequética: conceitos e definições

A psicopedagogia surgiu a partir dos conhecimentos trazidos da pedagogia e da psicologia e evoluiu em busca de um corpo teórico próprio, como uma ciência norteadora dos procedimentos necessários ao trabalho com crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos, objetivando o reconhecimento das capacidades individuais e o processo de desenvolvimento pelo qual a pessoa passa. Nessa trajetória histórica e evolutiva, a psicopedagogia encontrou muito de seus aportes teóricos na integração de vários campos de conhecimento, com a função de ter uma compreensão mais integradora do processo da aprendizagem humana. Nesse sentido, enquanto produção de conhecimento científico, a psicopedagogia nasceu da necessidade de uma melhor compreensão do processo de aprendizagem, não se bastando como aplicação da psicologia à pedagogia.

A psicopedagogia estuda o ato de aprender e ensinar, levando sempre em consideração as realidades interna e externa das aprendizagens em conjunto. Estuda o processo complexo da construção do conhecimento, como também os aspectos cognitivos, afetivos e sociais.

Pode-se conceituar o termo psicopedagogia como a busca de metodologia apropriada para elevar o nível de aprendizagem da pessoa. Dentro de nosso trabalho e missão na catequese, a psicopedagogia quer contribuir com a pedagogia catequética, aprofundando nos processos de desenvolvimento da maturidade e aprendizagem humanas, bem como o processo de educação da fé, uma vez que não podemos perder de vista que a catequese não é apenas ensino de conteúdo, mas também como uma mensagem que se transmite a partir de um caminho mistagógico. Como toda mensagem tem um interlocutor, se o catequista não estiver atento ao desenvolvimento do seu catequizando, poderá se equivocar na preparação de seus encontros de catequese.

Portanto, quando falamos em psicopedagogia catequética, estamos propondo um aprofundamento, uma reflexão para que o/a catequista, como educador da vida e da fé das pessoas que estão na catequese, compreenda melhor o desenvolvimento humano, bem como os estágios da fé dos nossos catequizandos.

Com a psicopedagogia catequética pretendemos refletir sobre os interlocutores da nossa catequese: idosos, adultos, jovens, adolescentes e crianças, buscando compreender como se dá a educação da fé, bem como as características da aprendizagem humana dentro de cada momento da vida, do seu processo evolutivo, como a pessoa que assimila e acolhe a mensagem.

A vida acontece em etapas. O ser humano, ao longo de sua existência, vai se desenvolvendo e adquirindo capacidades para aprender e conhecer a realidade. No entanto, para que a educação desse ser humano em desenvolvimento aconteça, é necessário que o conhecimento seja adaptado segundo a sua capacidade, ou seja, se queremos evangelizar os nossos catequizandos precisamos adaptar a mensagem da catequese segundo a sua maturidade humana, afetiva e cognitiva.

Não é possível elaborarmos uma catequese para crianças e a aplicarmos a adultos. Cada um tem seu momento específico, pois o ser humano é um ser inacabado, podemos sempre nos refazer, é um ser de possibilidades inserido no mundo. É necessário estabelecer um elo com a realidade dos catequizandos, pela adaptação da Palavra de Deus, levando em conta a idade de cada um, situações familiares e socioculturais. É isso que desejamos apresentar aqui para a nossa reflexão. Desejamos que as indicações que aqui apresentamos sejam consideradas orientações fundamentais para que a evangelização seja realmente efetiva e afetiva.

2. Educação da fé conforme as idades

Num primeiro momento devemos nos perguntar: É possível educar a fé de alguém? Ou educar alguém para a vida de fé?

Aqui temos duas palavras-chaves para a nossa ação evangelizadora de catequista: educação e fé. Vamos buscar entender o que significam.

a) Educação

É muito interessante percebermos que a palavra “educação” está ligada a pedagogo, discípulo, instrução, pois elas fazem parte de um mesmo campo lexical, todas têm algo em comum.

Podemos dizer que educação veio do verbo latim educare. Nele, temos o prevérbio e- e o verbo – ducare, – dúcere. No itálico, donde proveio o latim, dúcere se prende à raiz indo-europeia DUK-, grau zero da raiz DEUK-, cuja acepção primitiva era levar, conduzir, guiar. Educare, no latim, era um verbo que tinha o sentido de criar (uma criança), nutrir, fazer crescer. Etimologicamente, poderíamos afirmar que educação, do verbo educar, significa “trazer à luz a ideia”.

b) Fé

Por fé podemos entender, a partir do latim como fides, e do grego pistia,  a firme convicção de que algo é verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que depositamos nessa ideia ou fonte de transmissão. Em hebraico he’ emîn, da raiz aman, indica que crer significa “sentir-se seguro” “confiar em” “apoiar-se em”.

Na Sagrada Escritura, a fé é entendida como adesão total, que envolve a pessoa toda, “a fé se apresenta como entrega religiosa de toda a pessoa e não simplesmente adesão intelectual ou obediência moral, respondendo à natureza dinâmica, vital e pessoal da Palavra de Deus” (ALBERICH, 2004, p. 157).

Podemos perceber, no entanto, que a fé de uma pessoa que abraçou a vida cristã, que viveu um processo de conversão, não se reduz a uma adesão a verdades dogmáticas apenas; é base de um apelo pessoal de Deus; é um acontecimento que concerne à pessoa toda e lhe permite entrar no universo da aliança; é um encontro primeiro pessoal e depois comunitário com Jesus Cristo, reconhecido como o Deus que vem, que salva e que reúne.

Na catequese é preciso pensar em uma educação da fé que seja libertadora, que ajude o catequizando a pensar sobre a vida, a realidade, a cultura, ou seja, uma educação da fé que ajude a pensar problematizando o conhecimento, promovendo assim a autonomia e a formação da consciência crítica. O catequista também não pode ter a pretensão de apenas ser o educador, mas ao mesmo tempo alguém que ajuda o catequizando a fazer a experiência de fé, e, ao mesmo tempo, também educa na fé. A educação da fé não acontece com pessoas sozinhas e isoladas, mas em comunhão.

Devemos compreender, acima de tudo, que a fé é dom e graça de Deus, não a podemos limitar apenas ao nível humano, mas constitui uma atitude de fundo que dá sentido e orienta toda a vida. “A fé é um dom de Deus. Pode nascer do íntimo do coração humano somente como fruto da graça prévia e adjuvante e como resposta, completamente livre, à moção do Espírito Santo, que move o coração e o dirige a Deus, dando-lhe suavidade no consentir e crer na verdade” (DGC, n. 55).

A educação da fé na catequese tem a missão de ajudar no processo de humanização do homem e da mulher, sonhando a busca da transformação social. Nesse sentido, ressaltamos a importância e a necessidade da catequese para as diferentes idades que “é a exigência essencial para a comunidade cristã. Por um lado, de fato, a fé participa do desenvolvimento da pessoa; por outro lado, cada fase da vida é exposta ao desafio da descristianização e deve, acima de tudo, aceitar como um desafio, as tarefas sempre novas da vocação cristã” (DGC, n. 171, DNC, n. 180).

Enunciando a regra pedagógica do adaptar-se à capacidade cognitiva e afetiva da pessoa, pensamos quase sempre na forma de como deve ser o encontro de catequese, ou na metodologia que iremos adotar. No entanto, a adaptação primeira que devemos levar em consideração, e a mais importante em vista do desenvolvimento da pessoa a partir da catequese com crianças até a catequese com adultos e pessoas idosas, deve ter em vista o conteúdo entendido como mensagem que se quer anunciar.

Por isso, uma renovação da metodologia só será fecunda mediante um conteúdo renovado, adaptado à psicopedagogia de cada idade.

Nos dias atuais, há necessidade real de uma catequese continuada, permanente, que leve em conta toda a vida da pessoa, no entanto ainda encontramos uma catequese fragmentada em uma busca apenas dos sacramentos. É preciso, urgentemente, tirar da mensagem da catequese esse ranço da história que pensa em catequizar como doutrinar. Queremos pessoas convictas de uma mensagem e apaixonadas por Jesus Cristo.

É preciso pensar nos catequizandos como interlocutores de uma mensagem e não como “depósitos” de doutrinas e sacramentos, pois temos que buscar para todas as fases da vida uma catequese que una vida e fé, que parta da existência e da experiência e seja alimentada, iluminada pela sagrada escritura, pela tradição e pelo magistério.

A catequese conforme as idades não pode perder a originalidade da educação da fé. Falamos em adaptar, isso significa não perder a essencialidade da mensagem evangélica, não deixar de lado valores evangélicos que devem ser dialogados com os interlocutores da catequese.

Por isso, vale lembrar as indicações do Diretório Geral da Catequese, que nos apresenta uma síntese para que a adaptação do conteúdo-mensagem não perca de vista a originalidade evangélica, levando em conta a realidade onde os interlocutores estão inseridos.

O Catecismo da Igreja Católica indica quais são os aspectos que devem ser levados em consideração no momento de adaptar ou contextualizar a síntese orgânica da fé que todo catecismo local deve oferecer. Essa síntese da fé deve realizar as adaptações que são exigidas pelas diferenças de culturas, de idades, da vida espiritual, de situações sociais e eclesiais. Também o Concílio Vaticano II afirma com ênfase a necessidade de adaptar a mensagem evangélica. Essa maneira apropriada de proclamar a Palavra revelada deve permanecer como lei de toda a evangelização. Por isso:

- Um catecismo local deve apresentar a síntese da fé em referência à cultura concreta em que se encontram os catecúmenos e os catequizandos. Incorporará, portanto, todas aquelas expressões originais de vida, de celebração e de pensamento que são cristãos e que nasceram da própria tradição cultural, sendo fruto do trabalho e da inculturação da Igreja local.

- Um catecismo local fiel à mensagem e fiel à pessoa humana apresenta o mistério cristão de modo significativo e próximo à psicologia e à mentalidade da idade do destinatário concreto e, consequentemente, em clara referência às experiências fundamentais da sua vida.

- É preciso cuidar, de modo especial, da forma concreta de viver o fato religioso numa determinada sociedade. Não é a mesma coisa fazer um catecismo para um ambiente caracterizado pela indiferença religiosa e fazê-lo para outro, cujo contexto é profundamente religioso. A relação fé-ciência deve ser tratada com muito cuidado em cada catecismo.

- A problemática social circunstante, ao menos no que diz respeito aos elementos estruturais mais profundos (econômicos, políticos, familiares…), é um fator muito importante para contextualizar o catecismo. Inspirando-se na doutrina social da Igreja, o catecismo saberá oferecer critérios, motivações e linhas de ação que iluminem a presença cristã em meio a tal problemática.

- Finalmente, a situação eclesial concreta que a Igreja particular vive é, sobretudo, o contexto obrigatório ao qual o catecismo deve referir-se. Obviamente, não as situações conjunturais às quais se provê mediante outros documentos magisteriais, mas sim a situação permanente, que postula uma evangelização com acentos mais específicos e determinados (DGC, n. 133).

Portanto, pecebemos aqui que existe uma grande abertura do magistério da Igreja para a adaptação e a adequação do conteúdo-mensagem da catequese segundo as diversas realidades das idades e contextos eclesiais.

3. Conhecer os interlocutores da catequese

Acreditamos que o grande desafio que temos enfrentado nos últimos tempos, nos encontros de catequese, é o de conhecermos as pessoas a quem vamos transmitir uma mensagem, catequizar. A catequese tem cada vez mais ampliado os seus interlocutores, por isso, precisamos pensar em uma catequese do ventre materno à pessoa idosa. Durante muito tempo, a catequese se limitou à infância. E, mesmo assim, no horizonte da preparação imediata da primeira Eucaristia, numa linha quase exclusivamente doutrinária. O papel dos pais e da comunidade, apesar de certo esforço para uma visão mais ampla da catequese infantil, é ainda muito restrito. Não se percebeu suficientemente que uma das tarefas essenciais dos pais e da comunidade eclesial é criar ambiente e apoio para que a criança, o adolescente e o jovem caminhem para a maturidade na fé (CR, 131).

No processo ou itinerário de iniciação a pessoa é envolvida inteiramente em todas as esferas e dimensões do ser. O fracasso ou a falta de perseverança no caminho da fé se devem, muitas vezes, à falta desse envolvimento total dos iniciandos. Se isso é verdade para crianças e jovens, muito mais o é para os adultos (Estudos da CNBB, Iniciação à vida cristã, n.75).

A catequese, por muito tempo, aconteceu de forma desintegrada, pensando em formar maior número de fiéis para participar dos sacramentos. Por isso, hoje, mais do nunca, afirmamos que precisamos de uma catequese de iniciação à vida cristã. É necessária a incorporação do candidato, mediante os três sacramentos da iniciação, no mistério de Cristo, morto e ressuscitado, e na comunidade da Igreja, sacramento de salvação, de tal modo que o iniciado, profundamente transformado e introduzido na nova condição de vida, morra para o pecado e comece uma nova existência de plena realização. Essa inserção e transformação radical, realizada dentro do âmbito de fé da comunidade eclesial em que o cristão vive e dá sua resposta de fé, exige, por isso mesmo, um processo gradual ou um itinerário catequético que o ajude a amadurecer na fé (Estudos da CNBB, Iniciação à vida cristã, n. 68).

Ter clareza de que o ser humano é uma condição sem a qual não se pode, de modo algum, tê-lo como “matéria” de trabalho.

A questão é: como é possível evangelizar uma pessoa sem conhecê-la adequada e profundamente? O que a pessoa é em seu ser? Como se dá a fé na constituição de cada pessoa? Como poderemos educar a fé dos nossos catequizandos?

Essas questões pertinentes nos interpelam a pensar sobre a necessidade de penetrar no mais íntimo de cada pessoa que vem ao nosso encontro, em busca da catequese, às vezes somente para os sacramentos e, em outros casos, em busca de um processo de iniciação na fé. Em nossas comunidades, precisamos criar itinerários, percorrer o caminho da evangelização juntos, pois já não são mais destinatários, e sim interlocutores, uma vez que interagem no processo da catequese. Nossas Igrejas particulares, em todo o Brasil, ao longo de mais de quinhentos anos, de muitas formas têm convidado e conduzido ao caminho de Jesus. Sabem que o itinerário da iniciação cristã inclui sempre “o anúncio da Palavra, o acolhimento do evangelho, que implica a conversão, a profissão de fé, o Batismo, a efusão do Espírito Santo, o acesso à comunhão eucarística” (Catecismo, 1229). Contudo, nossas dioceses têm consciência de que muitos dos itinerários oferecidos aos não batizados são fragmentados. “Sabem também que, entre os batizados de várias idades, mesmo entre os que participam da comunidade e dos movimentos, há carência de itinerários de introdução e amadurecimento na fé” (Estudos da CNBB, Iniciação à vida cristã, n. 78).

Portanto, iluminados pelo nosso Diretório Nacional de Catequese afirmamos que a catequese conforme as idades é uma exigência essencial para a comunidade cristã. Leva em conta tanto os aspectos antropológicos e psicológicos como os teológicos, para cada uma das idades. É necessário integrar as diversas etapas do caminho de fé. Essa integração possibilita uma catequese que ajuda cada um a crescer na fé, à medida que vai crescendo em outras dimensões da sua maturidade humana e tendo novos questionamentos existenciais (DNC, n. 180).

4. O catequista educador da fé

O catequista é o grande responsável pela educação da fé dos seus catequizandos, uma vez que isso não está acontecendo, de modo geral, no seio familiar. Por isso a missão do catequista é ser “educador da fé das pessoas e comunidades, numa metodologia que inclua, sob forma de processo permanente por etapas sucessivas, a conversão, a fé em Cristo, a vida em comunidade, a vida sacramental e o compromisso apostólico” (DP, 1007).

Em toda a vida passamos por diversas fases que envolvem a nossa existência, nossa história e, com isso, vamos vivendo um processo de amadurecimento afetivo e psicológico, o que também ocorre na dinâmica da nossa vida de fé. Por exemplo, a fé de uma criança que vive a sua primeira infância, mais ou menos até os seis anos de vida, é diferente da fé de um adulto de quarenta anos. Dessa forma, caracterizar a situação psicológica e existencial do catequizando para depois indicar algumas alternativas da ação catequética, dentro de uma perspectiva metodológica e pedagógica, é uma urgência para nós catequistas.

Somente compreendendo o momento existencial que nosso catequizando vive é que poderemos ajudá-lo no processo de amadurecimento da fé e na vivência em comunidade, e assim atingir a finalidade da catequese, que é aprofundar o primeiro anúncio do evangelho: levar o catequizando a conhecer, acolher, celebrar e vivenciar o mistério de Deus, manifestado em Jesus Cristo, que nos revela o Pai e nos envia o Espírito Santo. Conduz à entrega do coração a Deus, à comunhão com a Igreja, corpo de Cristo e à participação em sua missão (DNC, n. 41).

Portanto, seja qual for a idade da pessoa que nos procure em nossas comunidades, é necessário buscar meios efetivos e afetivos para que a mensagem seja anunciada. Precisamos ser capazes de ir ao encontro, de conhecer suas realidades e ali fazer o anúncio, ajudando assim no caminho de fé em que a pessoa se despertou e quer fazer em nossas comunidades eclesiais.

O contexto atual, marcado por mudanças culturais, perda de valores e crise de paradigmas, atinge de maneira mais direta os jovens, adolescentes e crianças. A Igreja os prioriza como um importante desafio para o presente e o futuro (DNC, n. 187).

A catequese conforme as idades deve ser considerada, em nossa formação de catequistas, uma necessidade, pois cada uma das fases da vida é caracterizada por formas diferentes de organização de conhecimento das coisas e de maturidade de fé que possibilitam as diferentes maneiras da pessoa relacionar-se com a realidade que a rodeia. De forma geral, todas as pessoas vivenciam estágios em suas vidas que devem ser levados em conta no itinerário catequético. Eis o desafio para a nossa ação evangelizadora na formação dos nossos catequistas. Temos muito que caminhar, o que apresentamos neste estudo são apenas pontos de partida, frutos de nossa experiência como catequistas e com os catequistas que encontramos em nossa missão.

Referências bibliográficas

ALBERICH, E. Catequese evangelizadora: Manual de catequética fundamental. (Adaptação para o Brasil e América Latina: Luiz Alves de Lima). São Paulo: Salesiana, 2004.

CALANDRO, E.; LEDO, J. S. Psicopedagogia Catequética. Vol I, II, III, IV. São Paulo. Paulus, 2010.

CAVALLIN, A. Catequese para um mundo em mudança. São Paulo: Paulus, 1995.

CNBB. Diretório Nacional de Catequese. Brasília: Edições CNBB, 2006.

CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. Diretório geral para a Catequese. São Paulo: Loyola, Paulinas, 1988.

FOWLER, J. Estágios da Fé. São Leopoldo: Sinodal, 1992.

NAVARRO, M; PEDROSA, M. (orgs.). Dicionário de Catequética. São Paulo: Paulus, 2004.

Eduardo Calandro* / Jordélio Siles Ledo, CSS**

* Padre da diocese de Goiás-GO, especialista em psicologia e pedagogia catequética, mestrando em psicologia pela PUC-GO, onde leciona no curso de especialização em catequese; coautor da coleção Catequese conforme as idades – psicopedagogia catequética, pela Paulus.

** Padre estigmatino, especialista em pedagogia catequética e psicodrama; professor do curso de especialização em catequese pela PUC de Goiás, Membro do Centro de Formação Permanente (CEFOPE); coautor da coleção Catequese conforme as idades – psicopedagogia catequética, pela Paulus.

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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O Milagre da Multiplicação dos Pães

A multiplicação dos pães: Milagre ou Simples Partilha?

multiplicação-dos-pãesEm síntese: O episódio da multiplicação dos pães (Mt 14, 13-21) tem sido ultimamente apregoado não como um feito milagroso de Jesus, mas como a simples partilha dos farnéis existentes na multidão. Tal interpretação não somente não corresponde aos dizeres do texto, mas não é aceita pelos bons exegetas em geral. Trata-se de um fato histórico mila­groso, que os evangelistas descrevem como sinal do pão eucarístico e da bonança prometida pelos Profetas para o Reino messiânico.
Na pregação do Evangelho, ouve-se dizer que a multiplicação dos pães não foi um milagre, mas partilha do pão existente no farnel dos ouvintes de Jesus. Visto que tal interpretação tem causado perplexidade, ser-lhe-ão dedicadas as considerações seguintes.

1. Milagre ou partilha?

Antes do mais, é de notar que o episódio foi muito caro aos antigos. Mateus e Marcos o narram duas vezes; cf. Mt 14,13-21; 15, 29-39 e Mc 6, 30-40; 8, 1-18. São Lucas o refere uma só vez; cf. Lc 9, 10-17. São João também; cf. Jo 6,1-13. Os exegetas atualmente julgam que em Mt e Mc há duplicata do relato do fato, embora leves diferenças existam entre a primeira e a segunda narrativas; trata-se de duas tradições a referir o mesmo feito de Jesus.

Pergunta-se agora: que houve realmente no episódio em foco?

A interpretação tradicional e amplamente majoritária afirma ter havido um milagre: com poucos pães e peixes Jesus saciou milhares de homens. Recentemente começou-se a dizer que não houve milagre, mas Jesus orde­nou que os seus ouvintes repartissem entre si as provisões que haviam levado. Tal interpretação carece de fundamento no texto e o violenta, pois o evangelista faz observar que nada havia para comer entre a multidão.

“Chegada a  tarde, aproximaram-se dele os seus discípulos, dizen­do: “O lugar é deserto e a hora já está avançada. Despede as multidões para que vão aos povoados comprar alimento para si”. Mas Jesus lhes disse: “Não é preciso que vão embora. Dai-lhes vós mesmos de comer”. Ao que os discípulos responderam: “Só temos aqui cinco pães e dois peixes”.

Jesus então interveio, multiplicando os pães.

O caráter milagroso do episódio é mais realçado na segunda nar­rativa. Com efeito; a secção de Mt 15, 29-39 segue-se a um milagre de Jesus: a cura da filha da mulher cananéia (Mt 15, 21-28) e a uma declaração sobre a atividade taumatúrgica de Jesus:

“Vieram até ele numerosas multidões, trazendo coxos, cegos, aleijados, mudos e muitos outros e os puseram a seus pés e ele os curou, de sorte que as multidões ficaram espantadas… E renderam glória ao Deus de Israel” (Mt 15, 29-31).

Jesus mesmo diz logo a seguir:

“Tenho compaixão da multidão, porque já faz três dias que está comigo e não tem o que comer. Não quero despedi-la em jejum, de modo que possa desfalecer pelo caminho”.

Na base destas averiguações, não pode restar dúvida de que se trata de um fato histórico e milagroso em Mt 14, 21-32 e paralelos.

Vejamos algumas peculiaridades da narrativa.

2.  Particularidades literárias

O relato da multiplicação dos pães nos quatro Evangelhos não pode deixar de lembrar ao leitor certos antecedentes do Antigo Testamento:

Em 2Rs 4, 42-44 lê-se o seguinte: “Veio um homem de Baal-Salisa e trouxe para o homem de Deus pão das primícias, vinte pães de cevada e trigo novo em espiga. Eliseu ordenou: “Oferece a essa gente para que coma”. Mas o servo respondeu: “Como hei de servir isso para cem pessoas?”. Ele repetiu: “Oferece a essa gente para que coma, pois assim falou o Senhor: “Comerão e ainda sobrará”. Serviu-lhes, eles comeram e ainda sobrou segundo a palavra do Senhor”.

Verifica-se que a estrutura literária é a mesma que em Mt 14, 13-21; são levados a Eliseu alguns pães; o Profeta ordena a seu servo (discípulo) que sacie cem homens; o servo aponta a impossibilidade (como os Apóstolos). Eliseu ignora a objeção e, confiado na Palavra de Deus, manda distribuir o pão. Ficam sobras, como no relato evangélico.

Em Ex 16, 1-36 e Nm 11, 4-9 é narrada a entrega do maná ao povo no deserto, entrega à qual Jesus faz alusão ao prometer o pão eucarístico; cf. Jo 6, 49.

Tais episódios do Antigo e do Novo Testamento não referem apenas uma refeição humana, mas têm significado transcendental: querem dizer que Deus acompanha, ontem e hoje, seu povo peregrino e lhe oferece os subsídios necessários para que supere os obstáculos da caminhada e chegue certeiramente ao termo almejado, que é a vida eterna.

O relato evangélico faz alusões também à Eucaristia, o viático por excelência. Assim

Mt 14, 15: “Ao entardecer” em grego é a fórmula com que é introduzido o relato da última ceia;

Mt 14, 19: “tomou os pães”, “levantou os olhos para o céu”, “abençoou”, “partiu”, “deu aos discípulos” são expressões da última ceia e da posterior celebração eucarística.

Mt 14, 20: a grande quantidade de pão assim doada lembra a fartura prometida pelos Profetas para os tempos messiânicos; cf. Os 14, 8; Is 49, 10; 55, 1…

O recolher os fragmentos que sobram, é usual na celebração eucarística.

Em suma, a ceia de viandantes proporcionada pelo Senhor ao seu povo é prenúncio da ceia plena ou do banquete celeste, símbolo da bem-aventurança definitiva. É neste contexto que há de ser lida a secção de Mt 14, 13-21 e paralelos; na intenção dos evangelistas, ela quer significar o Dom supremo de Deus ao homem, que é o encontro face-a-face na bem-aventurança celeste.

Prof. Felipe Aquino

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terça-feira, 1 de outubro de 2013

A Igreja é de natureza divina

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Perseguida por causa de sua fidelidade e coerência

 

Diz o Papa Francisco: “A Igreja não é de natureza política, mas essencialmente espiritual” (Audiência aos representantes dos meios de comunicação social, 16/03/2013).

A Santa Igreja Católica de Cristo é uma realidade viva, renovada, reavivada, indestrutível, eterna, visível, espiritual, tradicional, presente, atuante e futurista sem nunca perder a fidelidade do projeto do Reino de Deus. Guiada em toda verdade de Jesus Cristo, na beleza da santidade do Espírito Santo e no infinito amor de Deus Pai. Dizia o Papa Gregório XVI: “É mais fácil destruir o sol do que destruir a Igreja e o papado”.

O Espírito Santo leva a Igreja continuamente a abrir espaço para a vinda do Reino, ser fiel à sua identidade e coerente com sua missão. Por causa dessa sua fidelidade e coerência, a Igreja encontra rejeições e perseguições como Cristo as encontrou.

Mas a Igreja não passa apenas por provações externas. Seus próprios membros, às vezes, se comportam como se ela fosse uma instituição puramente humana. Nos dois mil anos da sua história, o povo de Deus sofreu repetidamente a tentação de construir para si fortalezas, com o risco de confundi-las com o Reino de Deus ou de identificar-se com estruturas sociais e políticas.

Não é de pouca monta o julgamento que continuamente vitaliza sua história, ainda que a presença do Espírito é garantia de que jamais será destituída da sua primogenitura e da sua vocação católica. Ela é, todavia, sempre a barca que consegue navegar entre as ondas da história. Os dons do Espírito Santo lhe garantem que não naufragará: “As portas do inferno nada poderão contra ela” (Mt 16,18).

A Igreja é certamente santa, isto é, inteiramente de Deus, pela fé que ensina e professa, pela graça que recebe e doa, principalmente pelo Espírito que nela está. Como tal, permanece unida a Cristo, sua cabeça, e é sacramento universal de salvação. Todavia, se reconhece “sempre necessitada de purificação” (LG 8), no tocante à fidelidade a Cristo e, portanto, a si mesma. Reconhece assim que o julgamento de Deus está sobre ela e que a história pode ser seu lugar e instrumento.

O antigo Israel, nas desventuras e no exílio, crescia graças à voz - ora ameaçadora ora encorajadora - dos profetas. A Igreja cresce e se renova também pelos sofrimento e pelas derrotas. “A Igreja confessa que progrediu muito e pode progredir com a própria oposição daqueles que lhe são adversários ou que a perseguem” (GS 44).

A narrativa dos Atos Apóstolos mostra que a Igreja cresce em qualidade quando, deixando-se interpelar pela Palavra de Deus, vive de modo mais evangélico. Cresce quantitativamente quando, aumentado o número de crentes, fundam-se novas igrejas locais, alargam-se seus limites visíveis, melhoram suas estruturas pastorais. Mas um aspecto não deve prevalecer sobre o outro. Isto acontece quando nos contentamos com uma minoria de eleitos ou damos crédito demasiado às estatísticas.

Há uma alternação nas situações que acompanha este duplo crescimento: sucessos e fracassos, rupturas e recuperações da comunhão. Na história da Igreja não existem épocas inteiramente de ouro ou inteiramente de ferro. O bem e o mal se entrelaçam sempre e os olhos de Deus julgam os acontecimentos e situações com medidas diferentes das nossas. O que nos parece prosperidade satisfatória pode, na realidade, ser aparência estéril; onde vemos desolação, pode estar em preparação um fecundo progresso.

Não é por acaso que épocas particularmente difíceis foram marcadas por grandes figuras de santos e seguidas de desenvolvimentos nunca imaginados.

A vida da Igreja se desenvolve com contínua tensão: entre memória, celebração dos fatos salvíficos do passado e empenho pelo futuro do Reino. Deus quis condividir este empenho com os homens: explicitamente, com os crentes convocados na Igreja; implicitamente, com quantos, sem saber ou querer, mesmo combatendo e perseguindo a Igreja, possam colaborar com o seu desígnio.

Padre Inácio José do Vale

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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Francisco aos catequistas: sejam criativos, não tenham medo de romper os esquemas para anunciar o Evangelho

1_0_732465Cidade do Vaticano (RV) - O Papa encontrou na tarde desta sexta-feira, na Sala Paulo VI, os participantes do Congresso Internacional sobre a Catequese organizado no âmbito do Ano da Fé. Em seu discurso, o Pontífice ressaltou que "a catequese é um pilar para a educação da fé".

"É preciso bons catequistas!", exclamou, agradecendo aos presentes por esse serviço "à Igreja e na Igreja". "Mesmo se por vezes pode ser difícil, há muito trabalha, se esforça e não se veem os resultados desejados, educar na fé é belo! Talvez seja a melhor herança que podemos dar: a fé! Educar na fé" para que cresça.

Ajudar as crianças, os adolescentes, os jovens a conhecer e a amar sempre mais o Senhor é uma das aventuras educacionais mais bonitas, se constrói a Igreja! 'Ser' catequistas! Não trabalhar como catequistas, eh! – observou.

Isso não serve! Eu trabalho como catequista porque gosto de ensinar... Mas se você não é catequista, não serve! Não será fecundo! Não será fecunda! "Catequista é uma vocação: 'ser catequista', essa é a vocação; não trabalhar como catequista. Vejam bem, não disse 'trabalhar como catequista, mas sê-lo', porque envolve a vida. E assim se conduz ao encontro com Jesus com as palavras e com a vida, com o testemunho".

Francisco convidou a recordar aquilo que Bento XVI disse: "A Igreja não cresce por proselitismo. Cresce por atração". "E aquilo que atrai – precisou o Papa – é o testemunho. Ser catequista significa dar testemunho da fé; ser coerente na própria vida. E isso não é fácil! Não é fácil. Nós ajudamos, conduzimos ao encontro com Jesus com as palavras e com a vida, com o testemunho."

Em seguida, recordou aquilo que São Francisco de Assis dizia a seus confrades: "Preguem sempre o Evangelho e se fosse necessário também com as palavras". Mas antes vem o testemunho: "que as pessoas vejam o Evangelho em nossa vida. E 'ser' catequistas requer amor, amor sempre mais forte a Cristo, amor a seu povo santo. E esse amor não se compra nas casas comerciais; não se compra nem mesmo aqui em Roma. Esse amor vem de Cristo! É um presente de Cristo!

É um presente de Cristo! E se vem de Cristo parte d'Ele e nós devemos partir novamente de Cristo, desse amor que Ele nos dá. O que significa esse partir novamente de Cristo, para um catequista, para vocês, também para mim, porque também eu sou um catequista? O que significa?

O Papa respondeu com três coisas. Em primeiro lugar, partir novamente de Cristo significa ter familiaridade com Ele. Mas ter familiaridade com Jesus: Jesus o recomenda com insistência aos discípulos na Última Ceia, quando se aproxima a viver a doação mais alta de amor, o sacrifício da Cruz.

Jesus utiliza a imagem da videira e dos ramos e diz: permaneçam em meu amor, permaneçam junto a mim, como os ramos na videira. "Se estivermos unidos a Ele – observou Francisco – podemos dar fruto, e essa é a familiaridade com Cristo. Permanecer em Jesus!" É um permanecer apegado a Ele, "com Ele, falando com Ele: mas, permanecer em Jesus".

"A primeira coisa para um discípulo – prosseguiu – é estar com o Mestre, ouvi-lo, aprender d'Ele. E isso vale sempre, é um caminho que dura a vida inteira."

O Papa contou um episódio: "Numa de minhas saídas, aqui em Roma, numa missa aproximou-se um senhor, relativamente jovem e me disse: 'Padre, prazer conhecê-lo, mas não creio em nada! Não tenho o dom da fé! Entendia que era um dom... 'Não tenho o dom da fé! O que me diz?' 'Não desanime. Cristo lhe quer bem. Deixe-se olhar pelo Senhor! Nada mais que isso'.
E isso digo a vocês: deixem-se olhar pelo Senhor! – exortou o Santo Padre:

"Entendo que para vocês não è tão simples: especialmente para quem é casado e tem filhos, é difícil encontrar um tempo longo de calma. Mas, graças a Deus, não é necessário fazer todos do mesmo modo; na Igreja há variedade de vocações e variedade de formas espirituais; o importante é encontrar o modo adequado para estar com o Senhor; e isso se pode, é possível em qualquer estado de vida."

O Papa acrescentou o segundo elemento: "partir novamente de Cristo significa imitá-lo no sair de si e ir ao encontro do outro. Essa é uma experiência bonita, e um pouco paradoxal. Por qual motivo? Porque quem coloca no centro da própria vida Cristo, se descentra! Quanto mais se une a Jesus e Ele se torna o centro da sua vida, mais Ele o faz sair de si mesmo, o descentra e abre você aos outros.

"O coração do catequista vive sempre esse movimento de 'sistole – diastole': união com Jesus – encontro com o outro. Sistole – diastole. Se falta um desses dois movimentos, não bate mais, não pode viver."
O terceiro elemento, que está sempre nessa linha: "partir novamente de Cristo significa não ter medo de ir com Ele às periferias". De fato, o Pontífice exortou a não ter medo de caminhar com Jesus às periferias:
"Se um catequista se deixa tomar pelo medo, é um covarde; se um catequista está tranqüilo acaba por tornar-se uma estátua de museu; se um catequista é rígido torna-se estéril. Pergunto-lhes: alguém de vocês quer ser covarde, estátua de museu ou estéril?"

Francisco pediu criatividade e nenhum medo de sair dos próprios esquemas: isso caracteriza um catequista. Quando permanecemos fechados em nossos esquemas, nossos grupos, nossas paróquias, nossos movimentos – explicou – ocorre o que acontece a uma pessoa fechada em seu quarto: adoecemos.

A certeza que deve acompanhar todo catequista – acrescentou Francisco é que Jesus caminha conosco, nos precede. "Quando pensamos ir longe, a uma periferia extrema, Jesus está lá."

(FONTE)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Por que a Bíblia católica é diferente da protestante?

Qual a diferença da Bíblia Católica e a protestante?

A bíblia protestante tem apenas 66 livros porque Lutero e, principalmente os seus seguidores, rejeitaram os livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Baruc, Eclesiástico (ou Sirácida), 1 e 2 Macabeus, além de Ester 10,4-16; Daniel 3,24-20; 13-14. A razão disso vem de longe.

No ano 100 da era cristã os rabinos judeus se reuniram no Sínodo de Jâmnia (ou Jabnes), no sul da Palestina, a fim de definirem a Bíblia Judaica. Isto porque nesta época começava a surgir o Novo Testamento com os Evangelhos e as cartas dos Apóstolos, que os Judeus não aceitaram.

Nesse Sínodo os rabinos definiram como critérios para aceitar que um livro fizesse parte da Bíblia, o seguinte:

(1) deveria ter sido escrito na Terra Santa;

(2) escrito somente em hebraico, nem aramaico e nem grego;

(3) escrito antes de Esdras (455-428 a.C.);

(4) sem contradição com a Torá ou lei de Moisés.

Esses critérios eram nacionalistas, mais do que religiosos, fruto do retorno do exílio da Babilônia. Por esses critérios não foram aceitos na Bíblia judaica da Palestina os livros que hoje não constam na Bíblia protestante, citados antes.

Acontece que em Alexandria no Egito, cerca de 200 anos antes de Cristo, já havia uma forte colônia de judeus, vivendo em terra estrangeira e falando o grego. Os judeus de Alexandria, através de 70 sábios judeus, traduziram os livros sagrados hebraicos para o grego, entre os anos 250 e 100 a.C, antes do Sínodo de Jâmnia (100 d.C). Surgiu assim a versão grega chamada Alexandrina ou dos Setenta. E essa versão dos Setenta, incluiu os livros que os judeus de Jâmnia, por critérios nacionalistas, rejeitaram.

Havia então no início do Cristianismo duas Bíblias judaicas: uma da Palestina (restrita) e a Alexandrina (completa – Versão dos LXX). Os Apóstolos e Evangelistas optaram pela Bíblia completa dos Setenta (Alexandrina), considerando canônicos os livros rejeitados em Jâmnia. Ao escreverem o Novo Testamento usaram o Antigo Testamento, na forma da tradução grega de Alexandria, mesmo quando esta era diferente do texto hebraico.

O texto grego “dos Setenta” tornou-se comum entre os cristãos; e portanto, o cânon completo, incluindo os sete livros e os fragmentos de Ester e Daniel, passou para o uso dos cristãos.

Das 350 citações do Antigo Testamento que há no Novo, 300 são tiradas da Versão dos Setenta, o que mostra o uso da Bíblia completa pelos apóstolos. Verificamos também que nos livros do Novo Testamento há citações dos livros que os judeus nacionalistas da Palestina rejeitaram. Por exemplo: Rom 1,12-32 se refere a Sb 13,1-9;  Rom 13,1 a  Sb 6,3;  Mt 27,43 a Sb 2, 13.18; Tg 1,19 a Eclo 5,11;  Mt 11,29s a Eclo 51,23-30;  Hb 11,34 a 2 Mac 6,18; 7,42;  Ap 8,2 a Tb 12,15.

Nos séculos II a IV houve dúvidas na Igreja sobre os sete livros por causa da dificuldade do diálogo com os judeus. Finalmente a Igreja, ficou com a Bíblia completa da Versão dos Setenta, incluindo os sete livros.

Por outro lado, é importante saber também que muitos outros livros que todos os cristãos têm como canônicos, não são citados nem mesmo implicitamente no Novo Testamento. Por exemplo: Eclesiastes, Ester, Cântico dos Cânticos, Esdras, Neemias, Abdias, Naum, Rute.

Outro fato importantíssimo é que nos mais antigos escritos dos santos Padres da Igreja (Patrística) os livros rejeitados pelos protestantes (deutero-canônicos) são citados como Sagrada Escritura. Assim, São Clemente de Roma, o quarto Papa da Igreja, no ano de 95 escreveu a Carta aos Coríntios, citando Judite, Sabedoria, fragmentos de Daniel, Tobias e Eclesiástico; livros rejeitados pelos protestantes.

Ora, será que o Papa S. Clemente se enganou, e com ele a Igreja? É claro que não. Da mesma forma, o conhecido Pastor de Hermas, no ano 140, faz amplo uso de Eclesiástico, e do 2 Macabeus; Santo Hipólito (†234), comenta o Livro de Daniel com os fragmentos deuterocanônicos rejeitados pelos protestantes, e cita como Sagrada Escritura Sabedoria, Baruc, Tobias, 1 e 2 Macabeus.

Fica assim, muito claro, que a Sagrada Tradição da Igreja e o Sagrado Magistério sempre confirmaram os livros deuterocanônicos como inspirados pelo Espírito Santo.

Vários Concílios confirmaram isto: os Concílios regionais de Hipona (ano 393); Cartago II (397), Cartago IV (419), Trulos (692). Principalmente os Concílios ecumênicos de Florença (1442), Trento (1546) e Vaticano I (1870) confirmaram a escolha.

No século XVI, Martinho Lutero (1483-1546) para contestar a Igreja, e para facilitar a defesa das suas teses, adotou o cânon da Palestina e deixou de lado os sete livros conhecidos, com os fragmentos de Esdras e Daniel.

Sabemos que é o Espírito Santo quem guia a Igreja e fez com que na hesitação dos séculos II a IV a Igreja optasse pela Bíblia completa, a versão dos Setenta de Alexandria, o que vale até hoje para nós católicos.

Lutero, ao traduzir a Bíblia para o alemão, traduziu também os sete livros (deuterocanônicos) na sua edição de 1534, e as Sociedades Biblícas protestantes, até o século XIX incluíam os sete livros nas edições da Bíblia.

Neste fato fundamental para a vida da Igreja (a Bíblia completa) vemos a importância da Tradição da Igreja, que nos legou a Bíblia como a temos hoje. Disse o último Concílio: “Pela Tradição torna-se conhecido à Igreja o Cânon completo dos livros sagrados e as próprias Sagradas Escrituras são nelas cada vez mais profundamente compreendidas e se fazem sem cessar, atuantes. Assim o Deus que outrora falou, mantém um permanente diálogo com a Esposa de seu dileto Filho, e o Espírito Santo, pelo qual a voz viva do Evangelho ressoa na Igreja e através da Igreja no mundo, leva os fiéis à verdade toda e faz habitar neles copiosamente a Palavra de Cristo” (DV,8).

Por fim, é preciso compreender que a Bíblia não define, ela mesma, o seu catálogo; isto é, não há um livro da Bíblia que diga qual é o Índice dela. Assim, este só pôde ter sido feito pela Tradição Apostólica oral que de geração em geração chegou até nós.

Se negarmos o valor indispensável da Tradição, negaremos a autenticidade da própria Bíblia.

Prof. Felipe Aquino

(FONTE)

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Papa aceita renúncia de Dom Dadeus Grings e nomeia Dom Jaime Spengler como novo arcebispo de Porto Alegre

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Renuncia e nomeação - Nesta quarta-feira, dia 18 de setembro, o Papa Francisco aceitou a renúncia ao governo pastoral da Arquidiocese de Porto Alegre, apresentada por Dom Dadeus Grings, por motivo de idade e elevou Dom Jaime Spengler à dignidade de arcebispo, nomeando-o como novo titular de Porto Alegre. O comunicado foi feito pela Nunciatura Apostólica no Brasil.

Curriculo de Dom Jaime
Até esta data, o novo arcebispo era titular de Pátara e bispo auxiliar em Porto Alegre, exercendo a função específica de Vigário Episcopal do Vicariato de Gravataí. Aos 53 anos, Dom Jaime será o 7º arcebispo da história da Arquidiocese de Porto Alegre. Seu lema episcopal é: “In Cruce Gloriari – Gloriar-se na Cruz - inspirado na carta de São Paulo aos Colossenses. A data da posse canônica ainda será definida.
Dom Jaime nasceu no dia 06 de setembro de 1960, em Gaspar, Santa Catarina. Ingressou na Ordem dos Frades Menores onde emitiu seus primeiros votos religiosos em janeiro de 1983. Foi ordenado Diácono no dia 19 de junho de 1989 em Nazaré, Israel. Fez os cursos de filosofia e teologia em Petrópolis (RJ) e foi ordenado padre em novembro de 1990. Entre 1991 e 1995, foi mestre dos postulantes e professor no Seminário Frei Galvão. Em Roma, fez o doutorado de filosofia na Pontifícia Universidade Antonianum.
Aos 10 de novembro de 2010, Dom Jaime foi nomeado Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Porto Alegre pelo Papa Bento XVI. A ordenação episcopal, presidida por Dom Lorenzo Baldisseri, Núncio Apostólico no Brasil, aconteceu no dia 5 de fevereiro de 2011, na Paróquia São Pedro Apóstolo, na cidade de Gaspar.
Nomeado Vigário episcopal do Vicariato de Gravataí(RS), foi apresentado durante celebração eucarística na Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Anjos (Gravataí), no dia 13 de março de 2011.
No exercício do seu ministério episcopal no Rio Grande do Sul, Dom Jaime atuou na CNBB Regional Sul 3 como referencial para o setor de Juventude. Em 25 de junho de 2011, foi escolhido para integrar a Comissão Episcopal Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada da CNBB, sendo o Bispo Referencial para a Vida Consagrada no Brasil. No dia 15 de agosto de 2012, foi nomeado pelo Arcebispo Dom Dadeus Grings como Procurador e Ecônomo da Arquidiocese de Porto Alegre. Durante a 49ª Assembleia Anual do Episcopado Brasileiro, em Aparecida, em maio de 2013, foi escolhido pelos bispos do Rio Grande do Sul para ser o Bispo Referencial da Pastoral da Educação e Cultura, no Regional Sul-3 da CNBB.

Mandato de Dom Dadeus
Em 2011, ao completar 75 anos e, conforme prevê o Código de Direito Canônico, Dom Dadeus Grings apresentou ao Vaticano a renúncia do cargo de arcebispo metropolitano. O processo de escolha levou dois anos até a decisão final do Papa Francisco. Dom Dadeus Grings justifica a demora na sucessão pela importância que a Arquidiocese de Porto Alegre possui: “A sucessão de Dom Vicente Scherer demorou três anos. Isso também mostra a importância que tem esta sede diocesana” disse.
Dom Dadeus Grings permaneceu por 12 anos à frente do governo pastoral da 5ª arquidiocese mais importante do Brasil. Na dinamização da Arquidiocese, destaca-se a formação dos Vicariatos (circunscrições eclesiásticas), que garantem melhor organização e ação pastoral mais eficiente nos 29 municípios que compõe a Arquidiocese. O Prelado também é autor de vasta produção bibliográfica, somando 28 livros e 21 cartilhas, sendo a mais recente “As comunidades paroquiais - Cartilha da Nova Paróquia”. Além disso, colaborou com centenas de artigos de em destacados jornais da capital gaúcha.

A ARQUIDIOCESE DE PORTO ALEGRE EM NÚMEROS
Considerada pela Igreja como a 5ª mais importante do Brasil, a Arquidiocese de Porto Alegre foi fundada em 7 de maio de 1848 e elevada à dignidade de Arquidiocese em 1910. Possui população superior a 3 milhões de pessoas, abrangendo 29 municípios, divididos em quatro vicariatos territoriais: Porto Alegre, Canoas, Gravataí e Guaíba.
Números mais detalhados da Igreja local mostra o seguinte perfil:
156 Paróquias
739 Comunidades
17 Diaconias (serviços de caridade)
201 Padres diocesanos
59 Diáconos permanentes
155 Padres religiosos
139 Irmãos religiosos
1.123 Irmãs religiosas
2.129 Catequistas
2.906 Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão
Além disso, a Sede Metropolitana de Porto Alegre também congrega as Dioceses sufragâneas de Montenegro, Novo Hamburgo, Osório e Caxias do Sul.

Fonte: Arquidiocese de Porto Alegre

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Ler e meditar a Bíblia

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“Isso faz a diferença”

 

 

É preciso ter discernimento para ler, compreender e viver a mensagem bíblica. Não se deve levar tudo ao pé da letra. O exemplo de Jesus vai muito além do que aparece na palavra escrita, pois seria muito estranho seguir a ordem dada por Jesus: "Se tua mão te escandaliza, corta-a".
Os católicos estão lendo cada vez mais a Palavra de Deus e isso tem feito a diferença. No dia a dia, somos bombardeados com mensagens bem pouco edificantes, as quais, geralmente, incentivam a violência, o egoísmo e a exploração do outro. Entretanto, podemos encontrar na Bíblia mensagens repletas de sabedoria, capazes de nos orientar, estimular sentimentos e ações que constroem uma vida de qualidade. A leitura da Bíblia traz luz e direção ao projeto de vida de cada um, introduzindo lentamente na mentalidade do homem que a lê um modo de pensar diferente da maioria das pessoas. Ele recebe mensagens novas, guiadas pela sabedoria e pela força de Deus.

Com o passar dos anos, a teologia cristã foi se afastando da Bíblia, mas, a partir do Concílio Vaticano II, no documento Dei Verbum, a Bíblia foi reconduzida ao centro da vida da Igreja. O Documento de Aparecida também apresenta uma retomada dos textos bíblicos e está repleto deles. É o novo rosto da Igreja que quer ser cada vez mais parecida com as comunidades apresentadas nos primeiros capítulos dos Atos dos Apóstolos e com aquela sonhada por João Paulo II no documento Novo Millennio Ineunte como expressão da unidade dos cristãos em Cristo.
A lei do mundo vai na contramão da lei de todo discípulo de Jesus. A todo momento, somos incentivados a aproveitar a vida de forma egoísta, vivendo o hoje sem pensar no próximo, amando apenas a nós mesmos e esquecendo-se de amar a Deus. Ouvimos todos os dias essas mensagens e, se não ouvimos ou lemos algo diferente, a lei do mundo acaba prevalecendo e nos perdemos facilmente.
Se amar Deus e o próximo é toda a lei do discípulo de Jesus, a Bíblia lembra que este é o caminho para ser um cristão de elite, bom, santo, feliz.
O que você acha que prevalecerá em sua vida: a lei de Deus ou a lei do mundo? Com certeza, aquele que assiste a qualquer programa e lê qualquer revista ficará com a lei do mundo e será mais um entre tantos anônimos.

Padre Mário Bonatti
Sacerdote Salesiano de Dom Bosco

(FONTE)

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Celebrando o mês da Bíblia

be9d9854d5e07ade56a727f06a54ba9dA Bíblia é a Palavra de Deus, semeada no meio do povo. Assim cantamos em nossas celebrações, recordando a sua importância em nossa vida e em nossas comunidades. Com o objetivo de nos conscientizar sobre a importância desse livro sagrado, desde 1971, a Igreja no Brasil celebra setembro como o Mês da Bíblia.
A Igreja sempre nutriu um grande amor e respeito pela Palavra de Deus. E, após o Concílio Vaticano II, valorizou-a ainda mais, propondo que nas celebrações, ao lado da Mesa Eucarística, esteja também a Mesa da Palavra.
A Bíblia - palavra grega que significa "livros" - é o conjunto de 73 livros que contém a revelação divina. Dividida em duas grandes partes - o Antigo e o Novo Testamentos - tem como centro a pessoa de Jesus Cristo. Testamento é uma palavra latina que significa "aliança". A Bíblia é, portanto, o livro da aliança de Deus com seu povo.
O Antigo Testamento relata a experiência religiosa do povo hebreu, preparando-se para a vinda do Messias prometido. No início os relatos eram orais e só mais tarde, a partir do século X a.C., passaram a ser registrados por escrito.
O Novo Testamento mostra a vida e os ensinamentos de Jesus de Nazaré, o Messias prometido, e a experiência das primeiras comunidades na vivência desses ensinamentos. Foi escrito nos séculos l e II d.C., refletin-o as experiências das primeiras comunidades em relação a Jesus, à luz do Antigo Testamento.

VERDADE DIVINA – A Bíblia sempre foi a alma da Igreja. Inspirada por Deus, ela foi escrita por autores diversos, em épocas diferentes. Os hagiógrafos (autores sagrados) procuraram transmitir a mensagem divina mas com a linguagem e a cosmovisão de sua época. Por isso não se pode lê-la com espírito fundamentalista, interpretando tudo literalmente, mas sabendo ver na linguagem humana as verdades divinas.
Também são diversos os géneros literários: celebrações, histórias reais ou lendárias, leis, poesias, orações, provérbios, sabedoria popular, ensinamentos. Essa grande variedade forma a riqueza da Bíblia. Mas, em toda essa obra humana, reconhecemos também a autoria de Deus, pois o apóstolo São Pedro nos ensina que "homens inspirados pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus." (2Pd 1,20-21)
A Bíblia é a "Palavra de Deus escrita na linguagem dos homens". O Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática "Dei Verbum", ressalta que Deus é o autor principal de toda a Bíblia, mas Ele se serviu dos homens para concretizar seu plano: "Na redação dos livros sagrados, Deus escolheu homens, dos quais se serviu fazendo-os usar suas próprias faculdades e capacidades, a fim de que, agindo Ele próprio neles e por eles, escrevessem, como verdadeiros autores, tudo e só aquilo que Ele próprio quisesse." (DV, 11)
Por isso, quando lemos a Bíblia, é o próprio Deus que através dela entra em contato conosco, para nos comunicar sua vida. Essa certeza levou Santo Ambrósio a exclamar: "Ainda agora Deus passeia pelo paraíso quando leio as Escrituras".

LIVRO DE FÉ - Toda a Bíblia quer revelar o projeto de Deus: a libertação integral dos homens. Mostra um Deus que se preocupa com seu povo, libertando-o da escravidão do Egito; que busca a justiça dos pobres e excluídos; que não quer a morte mas o arrependimento e a vida do pecador. Mostra um Deus que deseja que todos tenham vida, e a tenham em plenitude.
É necessário lembrar que a Bíblia não é um livro de ciência ou de história, mas livro de fé. E faz-se necessário conhecer a época e o contexto cultural em que viveram os hagiógrafos, bem como conhecer a diversidade dos gêneros literários para que possamos fazer uma interpretação correta dos livros sagrados.
O fundamentalismo, que entende tudo ao pé da letra ignorando esses aspectos, leva a interpretações errôneas e distorcidas da mensagem de Deus. Como consequência, muitas vezes o texto sagrado, em vez de palavra que liberta e salva, torna-se moralismo opressor ou espiritualidade alienante.

VIVER A PALAVRA - A Bíblia é a Palavra de Deus a nos guiar, por isso é importante que busquemos nela nosso sustento espiritual. Somos convidados a ler, entender, viver e comunicar essa palavra, vendo nela a carta de amor que Deus escreveu para nós.
"O cristianismo é a religião da Palavra de Deus, não de uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarna¬do e vivo. Por conseguinte a Sagrada Escritura deve ser proclamada, escutada, lida, acolhida e vivida como Palavra de Deus, no sulco da tradição apostólica de que é inseparável." (Papa Bento XVI)
"Beijar a Bíblia é beijar o rosto de Deus"- assim nos ensina Santo Agostinho. Palavra viva e eficaz, nela encontramos a revelação de Deus Pai a transmitir a seus filhos os ensinamentos para a plena realização e para a verdadeira felicidade.

(FONTE)

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Aos catequistas, com gratidão!

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Catequista, você é uma pérola especial e um tesouro para Deus e sua amada Igreja. A sua singular vocação foi gerada no coração de Deus Pai, para que pudesse chegar aos corações dos seus filhos e filhas com a mensagem da vida – Jesus Cristo. Catequista, você não é apenas um transmissor de ideias, conhecimentos, doutrina ou, mais ainda, um professor de conteúdos e teorias, mas é um canal da experiência viva do encontro intrapessoal com a pessoa de Jesus Cristo.
Essa experiência é comunicada pelo Ser, Saber e Saber Fazer em comunidade, no coração da missão catequética. O ser e o saber do catequista se fundamentam numa dinâmica divina pautada na espiritualidade da gratuidade, da confiança, da entrega, da certeza de que somos impulsionados pelo Espírito Santo, fortalecidos pelo Cristo e amparados pelo Pai.
Catequista, com certeza são muitos, grandes e difíceis os desafios hoje de nossa catequese. Vivemos numa realidade que muitas vezes é contrária àquilo que anunciamos em nossa missão de levar e testemunhar a mensagem de Jesus Cristo. Mas temos a certeza de que não caminhamos sozinhos, somos assistidos pela grande catequista, a Virgem Santíssima.

Por isso, peço-lhe que a experiência do encontro com Jesus Cristo seja a força motivadora capaz de lhe trazer o encantamento por esse fascinante caminho de discipulado, cheio de desafios, mas que o faz crescer e acabam gerando profundas alegrias.
"A catequese é uma educação da fé das crianças, dos jovens e dos adultos, a qual compreende especialmente um ensino da doutrina cristã, dado em geral de maneira orgânica e sistemática, com o fim de iniciá-los na plenitude da vida cristã" (CT). Ensina o Catecismo da Igreja Católica: "no centro da catequese encontramos essencialmente uma Pessoa, a de Jesus Cristo de Nazaré, Filho único do Pai...”(cf CIC 1992). A finalidade definitiva da catequese é levar à comunhão com Jesus Cristo: só Ele pode conduzir ao amor do Pai no Espírito e fazer-nos participar da vida da Santíssima Trindade. Todo catequista deveria poder aplicar a si mesmo a misteriosa palavra de Jesus: 'Minha doutrina não é minha, mas Daquele que me enviou' (Jo 7,16) (CIC, 426-427).
Catequista, acolha o afetuoso abraço de gratidão de nossa amada mãe Igreja, nos seus bispos, padres e de milhares de pessoas, vidas agradecidas pela sua presença na educação da fé de nossos catequizandos, crianças, adolescentes, jovens e adultos. Em sua ação se traduz, de uma forma única e original, a vocação da Igreja-Mãe que cuida maternalmente dos filhos que gerou na fé, pela ação do Espírito.
Poderíamos dizer muitas coisas, palavras eloquentes e profundas, mas uma só é necessária: Deus lhe pague! E que a força da Palavra continue a suscitar-lhe a fé e o compromisso missionário!
Que a comunidade continue sendo o referencial da experiência do encontro com Cristo naqueles que sofrem, naqueles que buscam acolhida e necessitam ser amados, amparados e cuidados.
A ternura amorosa do Pai, a paz afável do Filho e a coragem inspiradora do Espírito Santo que cuida com carinho dos seus filhos e filhas, que um dia nos chamou a viver com alegria a vocação de catequista discípulo missionário, estejam na sua vida, na vida da sua comunidade hoje e sempre!

Foto

Dom Orani João Tempesta, O. Cist
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)

(FONTE)

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Os santos e as imagens na religiosidade popular

 

Por Pe. Orione Silva e Solange Maria do Carmo*

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A autora apresenta o valor, os pontos questionáveis e a compreensão adequada da comunhão dos santos, de sua veneração e do costume de ter imagens, com fundamentação na Bíblia e na Tradição da Igreja.

Ao falar de religiosidade popular, não poderíamos ignorar a força dos santos na vida de nossa gente e o lugar de destaque que eles ganharam na piedade católica. Para bem desenvolver esse tema, dividimos nosso texto em três partes. A primeira mostra o que quer dizer a assertiva “Creio na comunhão dos santos”, presente na nossa profissão de fé, o Credo dos Apóstolos que rezamos todo domingo na missa. A segunda trata da presença dos santos na Igreja, cuja veneração ela conserva desde muito tempo. Aterceira parte mexe num assunto delicado e nem sempre consensual entre os cristãos: o costume de ter imagens.

Para desenvolver esses temas, decidimos iniciar a conversa a partir de textos bíblicos. Eles vão servir de provocação para a reflexão. Para falar da comunhão dos santos, tomamos Ap 7,9-17, o belíssimo relato da multidão de pé diante do cordeiro, texto da liturgia da Festa de Todos os Santos. Para refletir sobre a veneração aos santos, escolhemos Eclo 44,1-15: o elogio aos antepassados, àqueles que nos mostram o caminho da fé. Para tratar do uso das imagens, não seria possível escolher um único texto. O assunto é polêmico e controvertido, havendo, nas Escrituras, tanto proibições de fazê-las como ordem para construí-las. Nesse caso, tomaremos textos diversos.

1. A comunhão dos santos

Nós professamos no Credo: “Creio na comunhão dos santos”. Mas o que é mesmo isso que a gente professa crer? Vamos tomar Ap 7,9-17. O autor do livro do Apocalipse relata uma de suas visões. Uma visão é um jeito de contar uma experiência de fé por meio de figuras e símbolos. É como um sonho vibrante e cheio de detalhes que a gente vai decifrando ao longo do dia. Leia Ap 7,9-17 e veja se você não vai se fazer algumas perguntas, tais como: O que é isso que o autor diz ter visto? Onde estava essa multidão de pessoas que ninguém podia contar? O Cordeiro representa quem? Faz lembrar o quê? Quem são esses anciãos? Bom, vamos responder essas questões por partes, tomando pouco a pouco os elementos que a visão descreve.

a) Multidão em pé diante do trono e do cordeiro

Esse texto narra uma espécie de visão do autor do Apocalipse. Visão não é algo que ele viu, mas que ele experimentou. Portanto, trata-se de uma experiência de fé, que é contada com riqueza de imagens e comparações bonitas, para dizer algo sobre Deus. O autor fala, inicialmente, de uma multidão que está em pé, de vestes brancas e palmas na mão, diante do trono e do Cordeiro. O que significa isso? O trono é o lugar onde o autor imagina que Deus está em sua glória. O autor nunca viu como é o lugar onde Deus está. Então imagina que seja como um trono de um rei; mas, como Deus é um rei diferente dos reis da Terra, ele pensa num trono glorioso. Estar diante do trono significa estar diante de Deus, na sua presença maravilhosa. O Cordeiro é Jesus ressuscitado, que depois de morto na cruz vence a morte. E ainda temos uma multidão que está diante de Deus e de Jesus. Essa multidão está de pé, isto é, numa posição de dignidade, de honra, como quem participa da glória de Deus. Portanto, estamos falando de pessoas glorificadas, isto é, que participam da amizade com Deus, vivendo em comunhão com ele.

O autor acrescenta que essa multidão está de vestes brancas e com palmas nas mãos. A veste branca é o símbolo da fidelidade da pessoa que não se corrompeu, que não se perdeu, que manteve seus princípios e sua fé durante toda a vida. Portanto, temos aí um povo inteiro que está na presença de Deus, na mais completa comunhão com ele, desfrutando de sua companhia amiga. É um povo santo e feliz na glória de Deus. O autor diz ainda que a multidão tem palmas nas mãos. As palmas são símbolo da vitória, entregue aos campeões de competições e aos reis, depois de batalhas. Portanto, trata-se de um povo que enfrentou uma batalha e saiu vitorioso. E comemora essa vitória feliz junto de Deus.

b) O povo que passou pela grande tribulação

O autor do Apocalipse continua sua visão questionando quem são todas essas pessoas vitoriosas diante de Deus. Ele mesmo responde com duas considerações importantes:“São os que vêm da grande tribulação”. Essa grande tribulação representa a vida nesse mundo. O cristão enfrenta, nesse mundo, muitas tribulações, que são os conflitos e dificuldades da pessoa que se esforça para ser fiel a Jesus. Nem sempre é fácil ser fiel. A grande tribulação é todo o conjunto de pelejas e dificuldades pelas quais o cristão passa na vida. Então, a multidão gloriosa no céu é formada pelo povo que enfrentou com sucesso a grande tarefa de viver a vida na fidelidade a Deus. “São os que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro.” O Cordeiro, como já vimos, é Jesus. O sangue representa o sacrifício, a morte. A expressão “sangue do Cordeiro” faz lembrar todo o sacrifício de Cristo, ou seja, tudo o que ele enfrentou em sua vida na terra por causa de sua fidelidade ao Pai. Ora, a multidão está em vestes brancas, tão brancas que levam a perguntar: Como conseguiram isso? O autor responde: Essas pessoas lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro. Elas alcançaram essa santidade unindo suas vidas ao sacrifício de Cristo, unindo-se a Jesus por completo, isto é, sendo cristãos sem reservas, até no sofrimento, até no martírio. Então, a multidão dos santos que está diante de Deus é um povo que viveu com intensidade a sua fé cristã. Os santos são pessoas que passaram por este mundo – a grande tribulação – vivendo com firmeza sua fé cristã.

c) Nada de fome, sede, calor, pranto

Depois o autor passa a mostrar como eles vivem na presença de Deus. E usa imagens bonitas para dizer que eles estão na glória, na mais completa felicidade, livres de todo sofrimento, plenamente consolados e confortados junto de Deus. Não sofrem mais nem pela fome, nem pela sede, nem pelo calor; são saciados pelo próprio Jesus nas “fontes de águas vivas”. Essas fontes significam aqui aquela situação junto de Deus em que se encontram o consolo e o remédio para todo mal, para todo sofrimento, até porque “o próprio Deus enxugará toda lágrima de seus olhos”, ou seja, o próprio Deus cuidará de confortar e dar aos seus santos a plena felicidade junto dele.

d) Comunhão dos santos

Nas primeiras comunidades, os cristãos eram chamados de santos. Paulo endereça várias de suas cartas aos santos que moram em Éfeso (Ef 1,1); aos santos que estão em Filipos (Fl 1,1); aos irmãos em Cristo, santos e fiéis que moram em Colossas (Col 1,2). Ele está se referindo às pessoas de fé que, por se comprometerem com Jesus, participam da santidade do Filho de Deus. Esses santos e fiéis, em suas comunidades, trabalhando e vivendo na fé, são o que hoje chamamos de Igreja peregrina, ou seja, o povo de Deus, comprometido com Cristo, que, enquanto peregrina ou caminha por este mundo, já participa da santidade de Cristo. No começo da Igreja, os cristãos eram chamados de santos ainda em vida.

Essa terminologia caiu em desuso. Ao longo do tempo, a palavra santos ganhou outra conotação: o sentido de não ter pecados. Como todos nós vivemos nossa santidade, mas sempre em meio às fraquezas desse mundo, a Igreja, sem deixar de considerar os sinais de santidade que existem na vida das pessoas, passou a chamar de santos os que já estão na vida eterna, por estarem em comunhão mais plena com Deus e não mais sujeitos às fraquezas desse mundo.

A teologia católica compreende que todos os mortos vivem em Deus. A vida continua após a morte. Isso só ficou claro após a experiência do Cristo ressuscitado. Antes, no Antigo Testamento, se pensava que os mortos estivessem mesmo acabados ou dormindo em algum lugar. Vejamos o que diz um texto do AT: “Não são os mortos que louvam o Senhor, nem os que descem à região do silêncio. Mas nós, os vivos, bendizemos o Senhor, desde agora e para sempre” (Sl 115/113B,17-18). Depois que Cristo ressuscitou, os discípulos compreenderam que os mortos não estão “na região do silêncio”, mas junto de Deus. Eles formam a Igreja que já está na glória.

Alguém poderia argumentar, dizendo que esses santos estão mortos. Mas nós diríamos que, em Cristo, a morte foi vencida. Depois de Cristo, entendemos que a morte não é o fim da vida, mas uma passagem para a eternidade. Os que morreram para este mundo estão vivos na glória de Deus. Entre eles e nós aqui na terra há uma comunhão de amor e de fidelidade, pois todos estamos unidos no mesmo Cristo. É a chamada comunhão dos santos. Os que já passaram pela grande tribulação e alcançaram a glória imortal se unem a nós que estamos ainda a caminho. O exemplo deles nos motiva. Então, a comunhão dos santos é essa amizade que rompe as barreiras da morte, do tempo e do espaço. É um laço forte e perene que se dá entre todos os que estão em Cristo. É uma experiência de solidariedade e amor, de compromisso uns com os outros, porque fazemos parte da mesma videira que é Jesus. Como os ramos de uma videira são solidários e unidos entre si, assim são todos que estão em Cristo: vivos e mortos, não importa. A ação de Jesus ultrapassa a morte! Os santos fazem parte de nossa Igreja. Não estão mais nesse mundo, junto de nós, mas estão vivos na glória de Deus. Um dia também nós vamos deixar de ser Igreja peregrina e passaremos a ser Igreja gloriosa. Engrossaremos o grupo dos que estão de pé diante do Cordeiro, com palmas nas mãos e vestes brancas.

2. A veneração aos santos

Tendo refletido sobre quem são os santos e o que significa essa comunhão entre nós, vamos para o próximo ponto: a veneração que a Igreja dá aos santos. Para abordar esse tema, vamos partir de Eclo 44,1-15. O autor desse texto nos faz um convite importante: lembrar sempre dos antepassados, daqueles que tiveram uma vida digna e cuja sabedoria deve ser proclamada.

Esse texto ajuda a entender o sentido da veneração que prestamos aos santos de nossa Igreja. Os santos são nossos antepassados e fizeram coisas grandiosas, dignas de admiração. Agora, estão junto de Deus, na vida eterna. São parte da história de nossa Igreja e da fé que ela professa.

A fé que a Igreja – e nós como Igreja – professa hoje não foi inventada; foi herdada dos nossos antepassados. Jesus conviveu com os apóstolos, suas primeiras testemunhas. Eles passaram adiante a experiência de fé que fizeram no seguimento de Jesus. Essa experiência chegou até nós cruzando o tempo, porque foi assumida e vivida pelos nossos antepassados. Então, nossa Igreja tem uma história. E essa história está repleta de pessoas que se destacaram no seguimento de Cristo. A vida dessas pessoas é um exemplo para todos que creem. A veneração aos santos é uma forma de valorizar a história de nossa Igreja, tratando com honra e dignidade as pessoas que se dedicaram ao seguimento de Cristo, fazendo com que a fé chegasse até nós.

Quando nos lembramos desses nossos ilustres antepassados, devemos ter em mente que eles fizeram a parte que lhes cabia, cumpriram sua missão. Hoje, cabe a nós viver bem a fé e deixar um bom testemunho de vida para os que virão depois de nós. Um dia, nós seremos os antepassados das próximas gerações. E assim a experiência de fé vai ultrapassando gerações e seguindo adiante.

É bem verdade que nem todos os antepassados são assim tão santos. O texto citado lembra isso. Algumas pessoas passam pela vida e não deixam nada de bom. Outros deixam exemplos marcantes. Esses são os antepassados que honramos com nossa veneração. Nossa Igreja tem o costume de analisar cuidadosamente a vida de algumas pessoas que se destacaram por uma especial vivência da fé e declarar que essas pessoas podem e devem ser consideradas santas. Essas pessoas são canonizadas, isto é, são declaradas santas de acordo com as normas (ou cânones) da Igreja. Quem foram Santo Antônio, Santo Agostinho, São Francisco de Assis, Santa Terezinha, Santa Madre Paulina e outros? Foram católicos de grandes virtudes, pessoas que se destacaram no seguimento de Cristo. Por isso, analisando a vida deles, a Igreja católica os declarou santos. E a canonização tem uma intenção pedagógica. Ao colocar o nome de um santo no cânon, sua veneração fica oficializada. Nós passamos a tomá-lo como exemplo de vida no seguimento de Jesus Cristo. Mas nós não seguimos os santos. Seguimos Jesus que é caminho, verdade e vida. E nesse caminho, não estamos sozinhos. Antes de nós, muitos seguiram Jesus. O exemplo dessas pessoas mostra que é possível e bom seguir Jesus.

Em um mundo marcado por fraquezas, muitos se perguntam se é possível ser santo, seguir de fato o caminho de Jesus. Será que os ensinamentos de Jesus não são uma utopia, um caminho impossível de trilhar? Será que é possível ser santo? A Igreja mostra que sim, apresentando o exemplo concreto da vida de tantas pessoas que cultivaram a santidade. A Igreja nos incentiva a olhar para a vida dos santos, a perceber a dedicação deles a Jesus. Isso nos aproxima mais ainda de Jesus.

Devemos, porém, tomar cuidado para que a nossa veneração aos santos não ganhe outro sentido e fique parecendo que a gente admira os santos não por seu seguimento exemplar a Jesus, mas porque eles teriam certos privilégios diante de Deus, ou seja, porque eles podem nos fazer favores e alcançar graças especiais.

Muitas vezes, até por falta de conhecer melhor a religião, acabamos fazendo certas coisas de sentido duvidoso ou mantendo certas práticas sem conhecer seu sentido. Vamos, então, dar uma olhada em certos costumes, para compreendermos melhor certas confusões que a gente faz. E vamos evitar confundir as coisas.

a)      Rezar para os santos

Temos na nossa Igreja o costume de rezar para os santos, pedindo a eles ajuda em alguma dificuldade. Às vezes pensamos que pedir aos santos é mais razoável que ir direto a Deus, pois eles são seres humanos como nós, capazes de se compadecerem de nossas fraquezas e sofrimentos. Mas, por trás dessa afirmação, há um equívoco: o de que Jesus, por ser Filho de Deus, não seria humano como nós. Ele é o Filho de Deus que se fez homem, totalmente homem. Ele sofreu como nós e por isso se compadece de nós. Sabe que não é fácil vencer as pelejas da vida e obedecer sempre a Deus. Por experimentar essa realidade humana tão plenamente, ele é o verdadeiro intercessor e mediador junto ao Pai. Bom, se é assim, e os santos? Podemos pedir que os santos intercedam por nós? Podemos rezar aos santos? Na verdade, nós não rezamos apenas aos santos. Rezamos com os santos. Em comunhão com eles. Quando rezamos com os santos, lembramos a vida e as qualidades deles. Nesse caso, nossa oração não seria para pedir a intercessão deles, mas para nos unir a eles no seguimento de Jesus Cristo.

b)     Pedir graças

Deus é um pai atento às nossas necessidades. Reza-se, então, não para fazer Deus mudar de ideia, como se ele fosse um pai que ignora a história de seus filhos. Reza-se para ficar em comunhão com ele, porque dessa comunhão emana a força para superar toda dificuldade. A verdadeira graça que se deve buscar não é um favor, nem a solução de um problema, mas a comunhão com Deus que ajuda a superar todos os problemas. E ainda que alguns não tenham solução, não se rezou em vão. A comunhão com Deus por meio da oração é uma graça sem conta. Nada se compara a ela. Nenhum momento de oração bem vivido é perda de tempo.

c)      Agradecer

Na hora de agradecer, costumamos ficar perdidos, sem saber a quem dirigir o agradecimento. Na missa, por exemplo, não é incomum rezar em ação de graças a Nossa Senhora, a São Judas etc. No entanto, devemos agradecer a Deus, pois Deus é o Senhor de tudo e é ele quem nos acompanha sempre. Ele é o autor de todo bem. E a missa é ação de graças a Deus por Jesus Cristo na ação do Espírito. Não faz sentido ação de graças a outro que não ao Pai, que ressuscitou Jesus dentre os mortos e, em Cristo, acolhe nossa vida como oferta.

d)     Acender vela

Costuma-se acender velas diante da imagem de um santo. E esse costume pode ter levado alguns a pensar que a vela é importante porque, enquanto ela está acesa, o santo está lá no céu rezando por nós. E, se a vela se apaga, o santo deixa de interceder por nós. Na verdade, a vela tem outro sentido. Ela significa que nós devemos ser luz no mundo como os santos foram luz.

e)      Fazer promessas

As promessas surgem quase sempre na hora do aperto. Prometemos fazer penitências e sacrifícios para os santos e para Deus, se eles atenderem a necessidade da gente. Pensamos que assim o santo atende mais depressa, interessado naquilo que foi prometido. E dizemos: “Ó São Benedito, se o Senhor me conseguir um emprego, eu vou à missa”. Ora essa! O interesse de ir à missa é nosso e não do santo. Com ou sem emprego, é melhor ir à missa. Talvez fosse bom não fazer promessas. A gente pode confiar em Deus em todos os momentos, mesmo nos mais difíceis.

f)       Fazer novenas

A novena é uma oração que a gente faz nove dias, semanas ou meses seguidos. Daí veio o costume de sacralizar o número nove. Se começamos uma novena e precisamos – por qualquer motivo – faltar um dia, entendemos que a novena foi interrompida e que não valeu. É preciso começar tudo de novo! Ora, podemos rezar nove dias. Ou até mais. Ou até menos. O que conta não é o número exato de dias, mas a oportunidade de cultivar a comunhão com Deus por meio da oração.

g)      Acompanhar procissões

As procissões são um costume antigo na Igreja. Pensamos homenagear o santo de nossa devoção ao acompanhar sua imagem pelas ruas. Mas a procissão não é uma homenagem ao santo; é uma caminhada para lembrar que nós caminhamos na estrada de Jesus, como os santos caminharam. Quando a gente sai pelas ruas carregando uma imagem, isso significa que, como os santos seguiram Jesus, nós também queremos fazer o mesmo.

h)     Dar esmolas para o santo

Desde pequeno, assistimos aos nossos pais colocarem dinheiro aos pés da imagem e dizer: “É dinheiro para Santo Antônio”. Ora, o santo não precisa de dinheiro. Quem precisa de dinheiro é a Igreja, para manter seus trabalhos. A Igreja espera que o povo contribua. O dinheiro do povo é usado para manter todos os trabalhos de evangelização e os gastos com manutenção e administração.

i)        Possuir imagens

Não faz mal possuir imagens; não atrai espíritos ruins ou mal-agouros. Elas não são amuletos que afastam mau-olhado. Elas são uma lembrança daquele santo, cuja fidelidade nos anima a sermos fiéis também.

j)       Ser devoto dos santos

Corremos o risco de pensar que ser devoto de um santo é fazer novenas e promessas para ele, mandar celebrar missas em sua homenagem, fazer festas no seu dia, distribuir santinhos, enfeitar sua imagem, acender velas para ele etc. Na verdade, ser devoto é conhecer a vida do santo, procurando praticar as virtudes que a gente admira nele. Sem isso, as outras práticas perdem o sentido.

3. O uso de imagens

Outra questão que precisamos entender melhor é o costume de possuir imagens. Nossa Igreja aceita e incentiva o uso de imagens – esculturas, pinturas e qualquer forma de arte – que representem os santos, Jesus ou que nos ajudem a lembrar de Deus. Há quem diga que a Bíblia proíbe fazer imagens de qualquer coisa. Mas o certo é que há na Bíblia textos que proíbem o povo de fazer imagens, textos que criticam o uso de imagens e outros textos que até incentivam fazer imagens. E, especificamente sobre imagens de santos, a Bíblia não diz nada. Afinal, precisamos lembrar que a Bíblia já estava escrita quando o costume de venerar os santos começou. Como lidar com tantas informações? Vamos entender isso melhor a partir de textos bíblicos. Vamos ler Ex 20,1-5a; Dt 4,15-20; Nm 21,4-9; Ex 25,17-22; 2Cr 4,2-4; e 2Cr 3,10-13.

Numa primeira fase, Deus proíbe o povo de fazer imagens. É uma fase mais antiga. O povo de Israel tinha saído do Egito, onde se cultuava muitos deuses, e estava vivendo entre outros povos, também politeístas, que costumavam prestar culto a deuses diversos e a eles dedicar imagens. Quando essa gente via uma imagem, fosse de gente ou de animal, se prostrava e ficava pensando que a imagem tinha força de ajudar a superar as dificuldades. Então, nessa fase, a Bíblia proíbe fazer qualquer imagem, para não confundir a cabeça do povo, porque o povo corria o risco de trocar o Deus verdadeiro por qualquer imagem, como aconteceu no relato do bezerro de ouro, no deserto.

a)      Ex 20,1-5a

Primeiro, Deus deixa claro que ele é o Deus verdadeiro que libertou o povo do Egito. E pede que o povo não siga outros deuses, porque o povo ainda pensava que havia outros deuses. Então, Deus pede ao povo que não faça imagens. Fazer imagens, tanto de gente como de animais, era um costume no Egito. O povo tinha que superar esse costume, para não correr o risco de se afastar do Deus verdadeiro. É preciso que o povo aprenda que só há um Deus.

b)     Dt 4,15-20

Deus começa mostrando que é diferente. Não tem figura. É um Deus diferente dos deuses do Egito. O povo crê em Deus, mas não o vê. Até por isso, não há como fazer imagem de Deus. Talvez, se isso fosse possível, não haveria problema. Mas as imagens eram de animais, de peixes, de pessoas. Então, não podiam ser feitas, pelas mesmas razões que já vimos. É proibido também adorar os astros e as estrelas do céu, como os egípcios faziam. Pois só há um Deus verdadeiro.

Vemos, então, que o problema é simples. O povo pensa, segundo o costume antigo, que a imagem é um deus vivo e por isso adora as imagens. Então, é melhor não fazê-las. É como a criança que não sabe usar a faca, por isso não pode pegá-la. Corre o risco de se machucar. Mas depois que cresce já sabe usar a faca sem se machucar.

O tempo foi passando e o povo acabou aprendendo que seu Deus era diferente, forte e poderoso, e que as imagens não tinham poder nenhum. Eram apenas um objeto de arte usado para enfeitar ou para lembrar alguma coisa, como um retrato que enfeita a parede e nos lembra algum parente antigo ou pessoa querida. O povo aprendeu que a imagem não é algo vivo, não deve ser adorada. Então, ninguém mais vai confiar numa imagem. Só em Deus. Então, nesse segundo momento, Deus permite que se façam imagens. O povo vai construir o templo, que será para um lugar de oração. Nesse templo, já podem colocar imagens.

c)      Nm 21,4-9

Esse relato conta que o povo ainda estava no deserto, quando houve o episódio das serpentes. Mas, na verdade, ele é bem posterior. Pelo menos do tempo do rei Salomão. É bom lembrar o seguinte: A serpente era adorada como deusa pelos povos de Canaã, a terra onde vivia o povo da Bíblia. Ela era símbolo de uma religião fácil que atraía o povo de Deus. Quando a vida pesava, a vontade do povo era abandonar o Deus verdadeiro e passar para a religião da serpente, isto é, do povo de Canaã. Essas mordidas fatais de serpente significam isso: o povo se descuidava de sua fé e era mordido, ou seja, dominado pelo desejo de mudar de religião. Isso gerava um esfriamento da fé. Então, quando o texto diz que Moisés fez uma serpente de bronze que ficava sempre diante do povo, significa que o povo nunca deveria se esquecer do perigo da religião da serpente, o baalismo. O objetivo parece ser este: olhando para aquela imagem de serpente, o povo tem sempre em mente que ela é um perigo, veem sua fragilidade e a tolice de botar em outro que não Deus a sua confiança. E aí caminham firmes na fé: não mais adoram a serpente. Pelo contrário, a serpente é só um sinal do mal e do perigo que ronda o povo. Em vez de afastar o povo de Deus, ela contribuía para fortalecer sua fé.

d)     Ex 25,17-22

A arca da aliança era levada sempre com o povo. Dentro dela, havia manuscritos com os dez mandamentos, que eram a garantia da aliança com Deus. O povo se reunia diante da arca para rezar. Claro, não adoravam a arca. Apenas lembravam a aliança que tinham feito com Deus. Na tampa da arca, o povo entendeu que Deus mandou colocar duas imagens de anjos. Os anjos – querubins – são apenas um sinal da presença de Deus. Mas o povo não adora os anjos, como fariam antes. Vendo a imagem dos anjos, lembram-se do Deus verdadeiro. Então, nesse caso, a imagem não afasta o povo de Deus. Ao contrário, aproxima.

e)      2Cr 4,2-4

Dentro do templo, havia um tanque com água, colocado sobre imagens de doze bois. Poderíamos, então, nos questionar: “Mas os bois são figuras de animais proibidos por Deus…”. De fato! Só que agora o povo já aprendeu que boi é boi e Deus é Deus. Ninguém vai adorar boi, como se fazia no Egito, quando achavam que os bois tinham poderes divinos. Os bois no templo são só um sinal, um enfeite. São símbolo de força: como os bois são fortes, o povo deve ser forte na fé. O povo vê os bois e não os adora, mas lembra que, para seguir a Deus, é preciso ser forte. O povo tinha até o costume de ofertar bois a Deus, pensando que Deus gostasse disso. Era um modo de agradecer ao Deus verdadeiro. Os bois no templo significam isso também: O povo quer agradar a Deus. Isso é bom.

f)       2Cr 3,10-13

Além disso, ainda foram colocados no templo dois anjos enormes, de mais ou menos dez metros. Mas o povo já não pensava que eles fossem deuses. Olhava a imagem dos anjos e se lembrava de Deus. E somente a Deus o povo adorava.

É fácil perceber como o povo mudou de mentalidade. Aprendeu, com o tempo, que só há um Deus verdadeiro e que a imagem é só um enfeite, um sinal para lembrar alguma coisa. Astros, animais, aves, peixes – tudo é criatura de Deus. Só Deus merece nossa adoração. Tendo entendido isso, não há mais problema em fazer imagens. Mas e as imagens de santos? Como surgiram e ganharam espaço na vida da Igreja? E quando surgiu essa polêmica sobre as imagens que hoje ganha espaço no cenário cristão?

A Bíblia não fala de santos, no sentido como hoje falamos. Já vimos que os primeiros cristãos eram chamados de santos, só por seguirem a Cristo, como nas cartas de Paulo. A ideia de fazer imagens dos cristãos já falecidos começou em um tempo posterior, quando os livros da Bíblia já estavam escritos.

As primeiras comunidades guardavam a memória dos seus mártires, como pede o livro do Eclesiástico. Eram companheiros de comunidade que tinham morrido, dando um belo testemunho de fé. A lembrança desses mártires incentivava os demais cristãos a permanecerem firmes na fé. Mas, no começo, a Igreja sofreu grandes perseguições. A pregação da mensagem de Cristo foi até proibida em muitas situações. Os cristãos rezavam em casa ou escondidos nas catacumbas de Roma – lugar em que os mortos eram sepultados. A ideia de rezar nas catacumbas é curiosa: por um lado, os cristãos estavam buscando um lugar seguro, para se protegerem das perseguições; por outro lado, faziam suas orações no local em que os mártires estavam sepultados, e isso lembrava que eles estavam vivos junto de Deus. Assim, se cultivava a comunhão dos santos.

Quando a Igreja se viu livre para prestar seu culto a Deus, ela deixou as catacumbas e pôde construir seus templos para rezar. Então, surgiu a ideia de levar pequenas relíquias dos santos para os altares das igrejas e enfeitar o templo com pinturas ou imagens que lembrassem os primeiros cristãos, mártires da fé. Foi feito mais ou menos como no Templo de Salomão. A construção dos templos gerou um grande movimento artístico. E, para enfeitar os templos, foram feitas pinturas e esculturas que lembravam que o templo era um lugar sagrado. Ao entrar nesse lugar, as pessoas se lembravam dos antepassados santos. As pinturas e imagens ajudavam a guardar a memória daqueles que deram sua vida por Cristo, mas continuavam vivos na memória dos cristãos.

Assim, surgiram as imagens dos santos. A Igreja já analisou em muitas épocas essa questão. Já houve católicos que foram contra o uso de imagens. Mas o consenso acabou dizendo que as imagens nos templos ou nas casas, para lembrar a vida dos santos, não fariam mal à fé, contanto que as pessoas não confundam as coisas e passem a achar que as imagens tenham algum poder sobrenatural. São apenas recordação dos nossos antepassados. Nada mais que isso.

Quando a polêmica em torno das imagens surgiu, os livros bíblicos já tinham sido escritos. A Bíblia já está pronta, e eis que surge um problema novo do qual a Bíblia praticamente não fala. Como a Igreja age nesse caso? Aqui vale a pena entender como funciona o chamado Magistério da Igreja. Para nós, católicos, a revelação de Deus não fica parada pelo fato de a Bíblia já estar pronta. A revelação escrita está na Bíblia, mas o Espírito Santo continua inspirando a Igreja para que sejam tomadas decisões sensatas sobre questões novas que dizem respeito à fé e à vida do povo. Nem tudo está escrito na Bíblia. Muitas vezes, diante das novidades, a Igreja busca inspirações bíblicas para tomar decisões. O importante é que prevaleça o bom senso. Para tomar decisões importantes, a Igreja costuma reunir seus líderes mais expressivos, fazendo o que chamamos de concílio. Em um concílio, papa, bispos, teólogos, especialistas diversos se reúnem para debater sobre determinadas questões em busca da posição equilibrada que reflita o bom senso da fé cristã. E essas decisões de pessoas movidas pela fé também são dignas de confiança e inspiradas por Deus, não porque Deus venha pessoalmente ditar sua vontade, mas porque as pessoas estão movidas pela fé. Para nós, a revelação de Deus é dinâmica e continua sendo atualizada na ação da Igreja.

Então, tentando estar sempre atenta ao que Deus diz ao seu povo, a questão das imagens foi tratada no Segundo Concílio de Niceia, realizado no ano 787. Buscava-se chegar a um consenso sobre a polêmica que se instalou em torno do tema. Em diversos lugares, autoridades da Igreja estavam incentivando a destruição completa das imagens e pinturas sacras, fato que ficou conhecido como “a questão iconoclasta” (“iconoclastia” significa quebra de ícones ou imagens). Reunidas no Segundo Concílio de Niceia, as autoridades eclesiásticas assim se pronunciaram: “definimos com todo rigor e cuidado que, à semelhança da cruz preciosa e vivificante, assim os venerandos santos ícones, quer pintados, quer em mosaico ou em qualquer outro material adequado, devem ser expostos nas santas igrejas de Deus… nas casas e nas ruas, tanto a figura do Senhor Deus e Salvador nosso Jesus Cristo, como da Senhora Imaculada nossa, a santa mãe de Deus, dos venerandos anjos e de todos os santos e justos” (Denzinger, 600). Desde então, ficou decidido que os fiéis são livres para possuir imagens em suas casas, nas igrejas etc.

Percebe-se, então, que, apesar de contestado o uso das imagens, a Igreja sempre firmou sua posição favorável. Quando veio a reforma protestante, novamente se questionou o uso de imagens. A Igreja católica novamente se posicionou, no Concílio de Trento (1545 a 1563), a favor do uso de imagens, não para serem adoradas, mas para recordarem ao povo a presença de Deus e as virtudes dos santos. Nas palavras do concílio, as imagens devem ser utilizadas “não por crer que lhes seja inerente alguma divindade ou poder que justifique tal culto, ou porque se deva pedir alguma coisa a essas imagens ou depositar confiança nelas como antigamente faziam os pagãos, que punham sua esperança nos ídolos”, mas porque por meio das imagens veneramos a realidade que elas representam (cf. Denzinger, 1821-1825). Vejam que a Igreja sempre se preocupou em esclarecer ao povo o sentido do uso das imagens e da veneração aos santos, para que não haja exagero e excesso na piedade popular.

 

Pe. Orione Silva e Solange Maria do Carmo*

*Autores da coleção Catequese Permanente, publicada pela editora Paulus, Pe. Orione Silva e professora Solange trabalharam juntos por muitos anos na catequese paroquial em cidades das Dioceses de Mariana e de Paracatu – MG. Ele é sacerdote da Arquidiocese de Mariana, e atualmente pároco de Catas Altas da Noruega. Ela é doutoranda em Teologia Na Faje em BH, onde também cursou mestrado; é professora de Teologia Bíblica no curso de Teologia da PUC-Minas e do ISTA (Instituto Santo Tomás de Aquino), em Belo Horizonte.
E-mails: solangedocarmo@ig.com.br; orionesilva@yahoo.com.br.

(FONTE)

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Catequese hoje: limites e tendências

images (1)Um dos pontos de estrangulamento de nossa catequese – lamentavelmente não é o único – tem sido a dificuldade de traduzir a reflexão teológica, tão ampla e generosa, numa linguagem catequética que fale, de fato, ao coração dos catequizandos. Entendemos aqui por linguagem catequética a comunicação entre catequistas e catequizandos e o modo como se dá essa comunicação, ou seja, a pedagogia que norteia os encontros. Essa comunicação tem sido bastante confusa porque tem se baseado em categorias que já deviam ter sido superadas, em razão de todo o avanço da reflexão teológico-catequética. Diante disso, precisamos buscar o modo adequado de compreender certas tendências da catequese hoje.

As perguntas que todo catequista se faz são mais ou menos as seguintes: Como vou traduzir a teologia catequética – presente em tantos documentos bonitos da Igreja – em linguagem que se preste à comunicação com os catequizandos? Como vou fazer uma catequese com tais características? Como deve ser a pedagogia do encontro, para que a catequese realmente fale ao coração das pessoas?

O catequista, cheio de boa vontade, vai a um encontro e lá aprende que a catequese precisa assumir as angústias do homem moderno. Mas quando o catequista volta à paróquia e se vê diante de sua turma, ele se sente perdido e interroga a si mesmo: “Como é que se assume a angústia desses catequizandos?”. Ou ainda: “A catequese precisa valorizar profundamente a dimensão afetiva da pessoa, mas, na prática, o que preciso fazer, na hora do encontro, para valorizar essa tal dimensão afetiva?”.

A questão que parece precisar de esclarecimento é a seguinte: A quem compete fazer essa tradução da reflexão teológica em linguagem catequética, construindo uma pedagogia adequada? Em nossa opinião, isso é função dos roteiros catequéticos. Esses roteiros têm o objetivo de organizar pedagogicamente a fé que a catequese deseja transmitir, pois a catequese lida em primeiro lugar com a transmissão da fé. Se o roteiro favorece uma boa comunicação da fé, teremos a porta aberta para que o catequizando faça sua experiência cristã de Deus.

Com relação aos roteiros, há pelo menos dois problemas:

Primeiro: a fobia de roteiros. Em muitos lugares, há um preconceito contra roteiros. Uma verdadeira roteirofobia. Dizem que não se pode dar tudo pronto para o catequista, que o catequista não pode se contentar com uma catequese livresca, que nenhum roteiro é completo, e por aí vai. Esse modo de pensar pode até ter certa razão. Mas parece que os roteiros acabam sendo importante auxílio pedagógico para a prática da catequese. Se cada catequista tiver que pesquisar e preparar encontros, partindo somente de suas teorias e sua prática eclesial, sem um instrumento didático, então a catequese jamais será coerente e orgânica, além de correr o risco de não transmitir a genuína fé, professada, celebrada e vivida pela comunidade-Igreja. Não é que não valorizemos o catequista. É até o contrário. Por valorizar o trabalho dos catequistas, julgamos de fundamental importância fornecer a eles material pedagógico adequado ao seu trabalho. Esse material, além de ajudar na unidade de todo o processo catequético, também será um auxílio para a formação do próprio catequista. A função do roteiro não é tirar a criatividade do catequista, dando tudo pronto, mas organizar metodologicamente a fé que a Igreja professa, celebra e vive; tudo isso dentro das categorias que as reflexões catequéticas vão pontuando nos documentos.

Segundo: a linguagem dos roteiros. Outro problema que surge com os roteiros existentes, pelo menos com grande número deles, é que utilizam ainda categorias antigas para falar de coisas novas. Há uma distância enorme entre as reflexões teológicas e o conteúdo de certos roteiros oferecidos aos catequistas. A maior parte dos roteiros ainda centraliza a catequese nos sacramentos, não indo muito além do esquema Dogma-Bíblia-Igreja. Então, o catequista encontra nos documentos reflexões interessantes, mas ao dar seus encontros vai partir do roteiro e não das teorias. Esse descompasso entre reflexão teológica e roteiro didático é outro ponto por onde nossa catequese se derrama.

Julgamos importante elaborar roteiros pedagógicos que assumam novas categorias para trabalhar a transmissão e o amadurecimento da fé. Isso não é fácil nem ranqüili, porque os pastores da Igreja se assustam quando pegam determinados subsídios catequéticos e não enxergam de imediato os sete sacramentos, os dez mandamentos, os sete pecados capitais, as orações dos cristãos e coisas assim.

Do ponto de vista pedagógico, sabemos que uma linguagem codificada em categorias antigas terá dificuldade de penetrar no coração dos catequizandos. Mas tudo é questão de código. Isso é admitido com ranqüilidade pelos documentos da Igreja. O Estudo da CNBB 53 – Textos e Manuais de Catequese – afirma no n. 108: “As formulações da fé têm seus condicionamentos históricos: a mesma fé pode, em situações diferentes, receber formulação diferente. O significado é que deve permanecer”. O mais interessante é que, ao dizer isso, os bispos estão praticamente citando o Concílio Vaticano I, de 1870! Então, é preocupante imaginar que há ainda resistências contra as reformulações da fé. Se não codificarmos nossa doutrina – tão rica! – em linguagem nova, ela será ininteligível.

Trata-se de transmitir o mesmo conteúdo da fé, a boa-nova de Cristo, mas de um modo tal que ela seja acolhida como algo realmente novo e importante para as pessoas do nosso tempo. Para compreendermos melhor essa mudança de categorias, essa recodificação, e para entendermos as tendências catequéticas presentes hoje no cenário eclesial católico, vamos tentar responder às perguntas seguintes, que julgamos de grande importância.

Solange Maria do Carmo

Mestre em Sagrada Escritura e professora da PUC-Minas e Centro Loyola de BH.

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