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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

José: o menino sonhador

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De todos os personagens do Antigo Testamento, José do Egito é uma das figuras mais fascinantes. Sua história, marcada pêlos sonhos, é cheia de símbolos e significados. Foram ainda seus sonhos que fizeram dele rival de seus irmãos e príncipe do Egito.

Também a proteção de Deus é sentida passo a passo na vida de José. Com ele, Deus encaminha a salvação do povo hebreu. Conheça melhor a história de José, lendo em sua Bíblia o livro do Gênesis, a partir do capítulo 37.

José nasceu em Canaã, na Palestina. Era o mais novo dos 12 filhos de Jacó. Seu pai, porém, tinha por ele um amor especial, o que causava muita inveja em seus irmãos. Para eles, Jacó lhe dava exageradas atenções, poupando-o do trabalho e fazendo, inclusive, muita diferença entre todos. Por exemplo, só José foi presenteado pelo pai com uma bonita túnica.

Além disso, José costumava ter sonhos interessantes e estranhos, o que deixava seus irmãos ainda mais furiosos. A reação deles era imediata, quando José lhes contava tais sonhos e os interpretava, pois não podiam aceitar que um dia o irmão se tornasse uma autoridade e tivessem que se inclinar a seus pés. Você já conhece algum desses sonhos de José?

Vejamos, então, dois deles e suas respectivas interpretações. Certa vez, José sonhou que todas as pessoas de sua família eram feixes de trigo num campo. Seu feixe estava de pé, reto e alto. Todos os outros feixes se inclinavam para o seu.

Num outro sonho, José olhava para o céu. Sua família era o sol, a lua e as estrelas. E todos se inclinavam na frente dele.

E, dessa vez, até seu pai ficou irritado quando o ouviu. Ele disse a José:

- Que negócio de sonho é este? Pare com isso!

Seus irmãos não só se irritavam com ele, mas também chegavam até a desejar sua morte para se verem livres.

Um dia, os irmãos de José estavam bem longe de casa, no campo, cuidando dos animais, pois eram pastores de ovelhas e cabras. Jacó, preocupado com eles, mandou que José fosse procurá-los para levar-lhes comida e trazer-lhe notícias. Assim que viram José aproximar-se, seus irmãos gozaram dele, dizendo: "Aí vem o sonhador. Vamos matá-lo". E combinaram entre eles como fazer isso, dizendo: "Vamos jogá-lo num poço qualquer; depois, falaremos que um animal feroz o devorou".

Porém, Rúben, um de seus irmãos, ouvindo isso, procurou salvar a vida de José. Ele falou: "Não lhe tiremos a vida!" E sugeriu aos irmãos que o jogassem num poço perto daquele lugar. Era grande e estava vazio, nele não havia água. Assim sugerindo, Rúben pensava que depois ele poderia voltar, tirar José e levá-lo de novo para casa.

Logo que José chegou junto deles, seus irmãos arrancaram-lhe a túnica e rasgaram-na; depois, sujaram-na com o sangue de uma cabra e em seguida jogaram José no poço. E muito contentes, sentaram-se para saborear a comida deliciosa que o irmão lhes trouxera. 

Quando Rúben voltou e não encontrou mais José, ficou muito triste e perguntou aos irmãos onde o haviam colocado e o que fizeram dele. E você sabe o que eles responderam? Veja só. Eles tiraram José do poço e o venderam aos comerciantes do Egito que passavam ali bem naquele dia. Eles transportavam mercadorias para vender. Mas, naquele tempo, era também costume vender pessoas para trabalhar como escravos em outros lugares.

Depois, os irmãos de José voltaram para casa levando sua túnica e, disfarçadamente, disseram ao pai que a haviam encontrado. E Jacó, pensando que seu rilho tivesse morrido, chorou muito.

No Egito

José tomou-se escravo de Putifar, o capitão da guarda real do Faraó. Putifar gostava tanto do trabalho de José que o nomeou chefe de todos os seus escravos. Um dia, porém, acusado injustamente pela esposa de Putifar, José foi preso. Mas ele não se desesperou... Continuou sendo bom e amigo de todos.

Foi aí que aconteceu uma das coisas mais importantes de sua vida: José começou a interpretar sonhos de seus colegas de prisão. Não errava um só deles. Por isso, sua fama chegou até o Faraó. Então, ele chamou José para explicar-lhe o significado de um sonho curioso que havia tido e que nenhum sábio dali conseguia interpretar. 

Acompanhemos a narração desse sonho do Faraó. Estando às margens do rio Nilo, o Faraó viu sair das águas sete belas vacas, gordas e bem nutridas. Depois delas, surgiram outras sete, muito magras e feias, que devoravam as outras. Ele viu também sete espigas bonitas e cheias de grãos que saíam da mesma haste e, junto delas, saíam outras sete, secas e feias, que devoravam as granosas e bonitas.

José, depois de ouvir atentamente esse sonho, com a ajuda de Deus, interpretou que as imagens das vacas e das espigas tinham o mesmo significado. Assim, as sete vacas gordas e as sete espigas cheias significavam sete anos de fartura, de colheitas abundantes em todo o Egito. Haveria muita comida para todos. Porém, depois viriam sete anos de fome, não só no Egito como também nas regiões vizinhas. E a miséria seria grande para todos.

Diante disso, José sugeriu ao Faraó que escolhesse, entre os egípcios, os homens mais capacitados para armazenar em celeiros parte das colheitas do tempo de fartura. Assim, a nação estaria prevenida e o povo não sofreria tanto nos sete anos seguintes.

O Faraó, impressionado com a sabedoria de José, não teve dúvida.Seria ele e não outra a pessoa que deveria realizar essa tarefa. E, imediatamente, nomeou-o como ministro responsável para acompanhar todo o trabalho de armazenagem das colheitas. Com isso, José passou a ser uma grande autoridade no Egito.

Mas, e agora? Como fica a história de José? Afinal, o que aconteceu com o sonho do Faraó? E na terra do pai de José, houve fome? E os seus irmãos? Sem dúvida, todos esses aspectos são muito importantes, eles completam a história de José.

As respostas para estas perguntas você as encontrará no mesmo livro do Gênesis. Continue, pois, sua leitura até o capítulo 47, versículo 6. E ainda, nos capítulos seguintes, a história de José continua. Seu final é narrado em Gn 50.

Continua…

(Fonte)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Manuscrito inédito sobre vida de São Francisco de Assis

francisco_cimabueNovos aspectos da vida de Francisco reemergem do passado; não só fragmentos, desta vez, ou citações indiretas extraídas de obras contemporâneas, mas a segunda mais antiga Vida do Santo de Assis, desconhecida até hoje, contida em um manuscrito aparentemente insignificante e ausente dos catálogos das bibliotecas, por fazer parte de uma coleção privada.

Um pequeno códice (do formato e 12×8 centímetros) no centro de uma questão historiográfica muito vasta e complexa, em curso, sem solução de continuidade, desde a terceira década do século XIII até os nossos dias, cruz e delícia de gerações de medievalistas: a busca de testemunhos biográficos sobre o Pobrezinho de Assis não coincidentes com a vida oficial, a Legenda de Bonaventura, aprovada em 1263.

Um livro que passou despercebido por muito tempo e que chegou ileso até nós, talvez justamente por causa da sua pobreza: trata-se de um pequeno códice “franciscano em sentido literal, humilde e pobre, sem decorações ou miniaturas”, explica-nos, de Paris, o autor da descoberta, o medievalista Jacques Dalarun, a quem pedimos que nos contasse os detalhes de uma pesquisa apaixonante e cheia de surpresas, como uma história de detetive paleográfica.

Eis a entrevista.

Como o senhor encontrou o manuscrito?

Graças ao e-mail de um colega, Sean Field, que leciona na Universidade de Vermont e é – aproveito a oportunidade para especificá-lo – felizmente casado: não é um frei franciscano, como vi escrito na imprensa nestes dias. Sean, sabendo que eu me ocupo há muito tempo com os testemunhos biográficos de Francisco, me assinalou um iminente leilão de um manuscrito que poderia ser interessante. E também graças ao cuidadoso e inteligente trabalho de Laura Light, a estudiosa que preparou a descrição do manuscrito para a casa de leilões norte-americana, que o colocou à venda no ano passado. Eu estava procurando esse texto há sete anos: durante os meus estudos, eu tinha encontrado fragmentos e vestígios dispersos, e tudo levava a pensar na existência de uma espécie de Legenda intermediária de Tomás de Celano, posterior à primeira redação e anterior à segunda Vida que conhecemos, uma obra composta sob o generalato do frei Elias. Encontrar esse texto foi uma confirmação muito, muito preciosa e, obviamente, uma grande alegria. Dizemos que essa descoberta choveu em um terreno pronto para recebê-lo.

Quando o senhor percebeu que o texto latino à sua frente na tela do seu computador não era apenas um florilégio umbro do fim do século XIII sobre a vida de Francisco, mas uma obra inédita de Tomás de Celano?

Decifrando o prólogo. No site, também havia imagens do manuscrito, não da mais alta qualidade, mas mesmo assim legíveis, embora com um pouco de dificuldade. A própria Laura Light, na sua descrição do códice, citava os meus estudos, referindo à possibilidade de que pudesse se tratar de uma peça importante de um mosaico ainda a ser totalmente concluído. Nesse ponto, a minha preocupação foi tornar o texto disponível aos estudiosos; se tivesse sido comprado de um privado, isso não seria automaticamente garantido. Por isso, me dirigi à diretora do departamento de manuscritos da Biblioteca Nacional da França, que, depois de uma negociação com a casa de leilões, comprou o livro. Enquanto isso, desde setembro passado até hoje, pude estudar o texto de modo aprofundado e preparar a edição latina e a tradução francesa, iniciando também as traduções em italiano e inglês. A notícia foi divulgada apenas no dia 16 de janeiro passado na imprensa francesa. Não era apropriado torná-lo conhecido antes para não interferir em uma negociação comercial em andamento, e eu queria também ter uma ideia precisa da colocação cronológica e do conteúdo do manuscrito.

Encontrou elementos interessantes no texto?

É um resumo, escrito em um lapso de tempo que vai de 1232 a 1239, da primeira versão da Legenda, considerada longa demais pelos contemporâneos, mas não só: são adicionados novos elementos e, lendo-o com atenção, fica evidente que a reflexão do autor também se aprofundou notavelmente ao longo do tempo, especialmente sobre as questões da pobreza e do amor pelas criaturas. Tomás de Celano era um homem muito profundo e nunca deixou de refletir sobre o ensinamento de Francisco. Em certo sentido, se poderia dizer que o biógrafo, com o passar dos anos, entende que… realmente não entendeu a mensagem de Francisco. Que o relatou, mas não o entendeu realmente. E é um texto amplo: a edição latina tem cerca de 60 cartelas.

Muitos comentários contidos na primeira versão foram eliminados, e há alguns pontos novos. Ressalta-se muito mais a concretude da experiência da pobreza, do experiri paupertatem não em sentido simbólico, alegórico ou só espiritual, mas real: significa usar as mesmas vestes e comer a mesma comida dos pobres. E se aprofunda o tema da fraternidade com toda a criação. No início, Tomás falava disso como de algo admirável, estranho e incrível, mas, substancialmente, estranho para a sua experiência. Bem escrito, mas distante. Na reescrita, em vez disso, ele reflete sobre o fato de que a fraternidade com a criação também diz respeito aos seres desprovidos de razão, não só aos seres humanos. É um discurso anti-identitário. Somos diferentes, mas irmãos, porque todos descendem da paternidade do Criador. Por isso, não concordo quando ouço que “Francisco amava a natureza”: é um conceito pagão. Francisco amava os seus irmãos homens e animais, por serem filhos de um mesmo Criador.

Há um ponto que chamou a sua atenção de modo particular?

Um episódio que já conhecíamos, mas que é contado de um modo um pouco diferente na chamada legenda trium sociorum. O que podemos ler agora é provavelmente a versão mais autêntica e mais antiga. Fala-se de uma viagem de Francisco em Roma, mas não como a peregrinação de uma pessoa já convertida, que abraçou a vida religiosa. Neste caso, é contada uma viagem de negócios de um mercador que fica impressionado com a pobreza dos mendicantes que vê perto de São Pedro e se pergunta se seria capaz de viver uma experiência semelhante. Nada a ver com a versão adocicada que se difunde posteriormente: Francisco, já frei, que se inclina sobre a dor de quem cruza pelo seu caminho. Aqui, o contraste é muito mais forte, não uma mudança gradual, mas um verdadeiro choque. Tomás acrescenta outros detalhes muito concretos e realistas: explica que Francisco reparava os buracos na sua túnica usando fibras tiradas da casca das árvores e das ervas que encontrava nos campos, justamente como faziam aqueles que não tinham absolutamente nada, nem mesmo os instrumentos para costurar.

Ainda é preciso entender...

O suspense está apenas no início: quem tinha esse livro no bolso? Por quem foi feito? Provavelmente, por um frei menor, perto de Assis. Quem podia ter conhecimento desses textos? O frei Leão, ou talvez o frei Luigi Pellegrini, levando em conta também o fato de que a Vita tem apenas 15 fólios, um oitavo do volume. No manuscrito, também há as Admoestações de Francisco e muito mais. Mas ainda há muito o que entender. Também é interessante o momento histórico em que floresceu do passado esse testemunho, em um ângulo de século que tem muitos pontos em comum com a grande expansão econômica e os grandes bolsões de pobreza do século XIII. É uma bela ajuda por parte do primeiro Francisco para o atual papa, que, justamente agora, está preparando uma encíclica sobre o amor pela criação.

A reportagem é de Silvia Guidi, publicada no jornal “L’Osservatore Romano”, no dia 27-01-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto, do Instituto Humanitas Unisinos.

(FONTE)

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2015

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Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2015
Terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Boletim da Santa Sé

“Fortalecei os vossos corações” (Tg 5, 8)

Amados irmãos e irmãs,

Tempo de renovação para a Igreja, para as comunidades e para cada um dos fiéis, a Quaresma é sobretudo um «tempo favorável» de graça (cf. 2 Cor 6, 2). Deus nada nos pede, que antes não no-lo tenha dado: «Nós amamos, porque Ele nos amou primeiro» (1 Jo 4, 19). Ele não nos olha com indiferença; pelo contrário, tem a peito cada um de nós, conhece-nos pelo nome, cuida de nós e vai à nossa procura, quando O deixamos. Interessa-Se por cada um de nós; o seu amor impede-Lhe de ficar indiferente perante aquilo que nos acontece. Coisa diversa se passa connosco! Quando estamos bem e comodamente instalados, esquecemo-nos certamente dos outros (isto, Deus Pai nunca o faz!), não nos interessam os seus problemas, nem as tribulações e injustiças que sofrem; e, assim, o nosso coração cai na indiferença: encontrando-me relativamente bem e confortável, esqueço-me dos que não estão bem! Hoje, esta atitude egoísta de indiferença atingiu uma dimensão mundial tal que podemos falar de uma globalização da indiferença. Trata-se de um mal-estar que temos obrigação, como cristãos, de enfrentar.

Quando o povo de Deus se converte ao seu amor, encontra resposta para as questões que a história continuamente nos coloca. E um dos desafios mais urgentes, sobre o qual me quero deter nesta Mensagem, é o da globalização da indiferença.

Dado que a indiferença para com o próximo e para com Deus é uma tentação real também para nós, cristãos, temos necessidade de ouvir, em cada Quaresma, o brado dos profetas que levantam a voz para nos despertar.

A Deus não Lhe é indiferente o mundo, mas ama-o até ao ponto de entregar o seu Filho pela salvação de todo o homem. Na encarnação, na vida terrena, na morte e ressurreição do Filho de Deus, abre-se definitivamente a porta entre Deus e o homem, entre o Céu e a terra. E a Igreja é como a mão que mantém aberta esta porta, por meio da proclamação da Palavra, da celebração dos Sacramentos, do testemunho da fé que se torna eficaz pelo amor (cf. Gl 5, 6). O mundo, porém, tende a fechar-se em si mesmo e a fechar a referida porta através da qual Deus entra no mundo e o mundo n’Ele. Sendo assim, a mão, que é a Igreja, não deve jamais surpreender-se, se se vir rejeitada, esmagada e ferida.

Por isso, o povo de Deus tem necessidade de renovação, para não cair na indiferença nem se fechar em si mesmo. Tendo em vista esta renovação, gostaria de vos propor três textos para a vossa meditação.

1. «Se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros» (1 Cor 12, 26): A Igreja.

Com o seu ensinamento e sobretudo com o seu testemunho, a Igreja oferece-nos o amor de Deus, que rompe esta reclusão mortal em nós mesmos que é a indiferença. Mas, só se pode testemunhar algo que antes experimentámos. O cristão é aquele que permite a Deus revesti-lo da sua bondade e misericórdia, revesti-lo de Cristo para se tornar, como Ele, servo de Deus e dos homens. Bem no-lo recorda a liturgia de Quinta-feira Santa com o rito do lava-pés. Pedro não queria que Jesus lhe lavasse os pés, mas depois compreendeu que Jesus não pretendia apenas exemplificar como devemos lavar os pés uns aos outros; este serviço, só o pode fazer quem, primeiro, se deixou lavar os pés por Cristo. Só essa pessoa «tem a haver com Ele» (cf. Jo 13, 8), podendo assim servir o homem.

A Quaresma é um tempo propício para nos deixarmos servir por Cristo e, deste modo, tornarmo-nos como Ele. Verifica-se isto quando ouvimos a Palavra de Deus e recebemos os sacramentos, nomeadamente a Eucaristia. Nesta, tornamo-nos naquilo que recebemos: o corpo de Cristo. Neste corpo, não encontra lugar a tal indiferença que, com tanta frequência, parece apoderar-se dos nossos corações; porque, quem é de Cristo, pertence a um único corpo e, n’Ele, um não olha com indiferença o outro. «Assim, se um membro sofre, com ele sofrem todos os membros; se um membro é honrado, todos os membros participam da sua alegria» (1 Cor 12, 26).

A Igreja é communio sanctorum, não só porque, nela, tomam parte os Santos mas também porque é comunhão de coisas santas: o amor de Deus, que nos foi revelado em Cristo, e todos os seus dons; e, entre estes, há que incluir também a resposta de quantos se deixam alcançar por tal amor. Nesta comunhão dos Santos e nesta participação nas coisas santas, aquilo que cada um possui, não o reserva só para si, mas tudo é para todos. E, dado que estamos interligados em Deus, podemos fazer algo mesmo pelos que estão longe, por aqueles que não poderíamos jamais, com as nossas simples forças, alcançar: rezamos com eles e por eles a Deus, para que todos nos abramos à sua obra de salvação.

2. «Onde está o teu irmão?» (Gn 4, 9): As paróquias e as comunidades

Tudo o que se disse a propósito da Igreja universal é necessário agora traduzi-lo na vida das paróquias e comunidades. Nestas realidades eclesiais, consegue-se porventura experimentar que fazemos parte de um único corpo? Um corpo que, simultaneamente, recebe e partilha aquilo que Deus nos quer dar? Um corpo que conhece e cuida dos seus membros mais frágeis, pobres e pequeninos? Ou refugiamo-nos num amor universal pronto a comprometer-se lá longe no mundo, mas que esquece o Lázaro sentado à sua porta fechada (cf. Lc 16, 19-31)?

Para receber e fazer frutificar plenamente aquilo que Deus nos dá, deve-se ultrapassar as fronteiras da Igreja visível em duas direcções.

Em primeiro lugar, unindo-nos à Igreja do Céu na oração. Quando a Igreja terrena reza, instaura-se reciprocamente uma comunhão de serviços e bens que chega até à presença de Deus. Juntamente com os Santos, que encontraram a sua plenitude em Deus, fazemos parte daquela comunhão onde a indiferença é vencida pelo amor. A Igreja do Céu não é triunfante, porque deixou para trás as tribulações do mundo e usufrui sozinha do gozo eterno; antes pelo contrário, pois aos Santos é concedido já contemplar e rejubilar com o facto de terem vencido definitivamente a indiferença, a dureza de coração e o ódio, graças à morte e ressurreição de Jesus. E, enquanto esta vitória do amor não impregnar todo o mundo, os Santos caminham connosco, que ainda somos peregrinos. Convicta de que a alegria no Céu pela vitória do amor crucificado não é plena enquanto houver, na terra, um só homem que sofra e gema, escrevia Santa Teresa de Lisieux, doutora da Igreja: «Muito espero não ficar inactiva no Céu; o meu desejo é continuar a trabalhar pela Igreja e pelas almas» (Carta 254, de 14 de Julho de 1897).

Também nós participamos dos méritos e da alegria dos Santos e eles tomam parte na nossa luta e no nosso desejo de paz e reconciliação. Para nós, a sua alegria pela vitória de Cristo ressuscitado é origem de força para superar tantas formas de indiferença e dureza de coração.

Em segundo lugar, cada comunidade cristã é chamada a atravessar o limiar que a põe em relação com a sociedade circundante, com os pobres e com os incrédulos. A Igreja é, por sua natureza, missionária, não fechada em si mesma, mas enviada a todos os homens.

Esta missão é o paciente testemunho d’Aquele que quer conduzir ao Pai toda a realidade e todo o homem. A missão é aquilo que o amor não pode calar. A Igreja segue Jesus Cristo pela estrada que a conduz a cada homem, até aos confins da terra (cf. Act 1, 8). Assim podemos ver, no nosso próximo, o irmão e a irmã pelos quais Cristo morreu e ressuscitou. Tudo aquilo que recebemos, recebemo-lo também para eles. E, vice-versa, tudo o que estes irmãos possuem é um dom para a Igreja e para a humanidade inteira.

Amados irmãos e irmãs, como desejo que os lugares onde a Igreja se manifesta, particularmente as nossas paróquias e as nossas comunidades, se tornem ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença!

3. «Fortalecei os vossos corações» (Tg 5, 8): Cada um dos fiéis

Também como indivíduos temos a tentação da indiferença. Estamos saturados de notícias e imagens impressionantes que nos relatam o sofrimento humano, sentindo ao mesmo tempo toda a nossa incapacidade de intervir. Que fazer para não nos deixarmos absorver por esta espiral de terror e impotência?

Em primeiro lugar, podemos rezar na comunhão da Igreja terrena e celeste. Não subestimemos a força da oração de muitos! A iniciativa 24 horas para o Senhor, que espero se celebre em toda a Igreja – mesmo a nível diocesano – nos dias 13 e 14 de Março, pretende dar expressão a esta necessidade da oração.

Em segundo lugar, podemos levar ajuda, com gestos de caridade, tanto a quem vive próximo de nós como a quem está longe, graças aos inúmeros organismos caritativos da Igreja. A Quaresma é um tempo propício para mostrar este interesse pelo outro, através de um sinal – mesmo pequeno, mas concreto – da nossa participação na humanidade que temos em comum.

E, em terceiro lugar, o sofrimento do próximo constitui um apelo à conversão, porque a necessidade do irmão recorda-me a fragilidade da minha vida, a minha dependência de Deus e dos irmãos. Se humildemente pedirmos a graça de Deus e aceitarmos os limites das nossas possibilidades, então confiaremos nas possibilidades infinitas que tem de reserva o amor de Deus. E poderemos resistir à tentação diabólica que nos leva a crer que podemos salvar-nos e salvar o mundo sozinhos.

Para superar a indiferença e as nossas pretensões de omnipotência, gostaria de pedir a todos para viverem este tempo de Quaresma como um percurso de formação do coração, a que nos convidava Bento XVI (Carta enc. Deus caritas est, 31). Ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem quer ser misericordioso precisa de um coração forte, firme, fechado ao tentador mas aberto a Deus; um coração que se deixe impregnar pelo Espírito e levar pelos caminhos do amor que conduzem aos irmãos e irmãs; no fundo, um coração pobre, isto é, que conhece as suas limitações e se gasta pelo outro.

Por isso, amados irmãos e irmãs, nesta Quaresma desejo rezar convosco a Cristo: «Fac cor nostrum secundum cor tuum – Fazei o nosso coração semelhante ao vosso» (Súplica das Ladainhas ao Sagrado Coração de Jesus). Teremos assim um coração forte e misericordioso, vigilante e generoso, que não se deixa fechar em si mesmo nem cai na vertigem da globalização da indiferença.

Com estes votos, asseguro a minha oração por cada crente e cada comunidade eclesial para que percorram, frutuosamente, o itinerário quaresmal, enquanto, por minha vez, vos peço que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!

Vaticano, Festa de São Francisco de Assis,

4 de Outubro de 2014.

FRANCISCUS PP.

O que é o Credo?

Em seus doze artigos, o ‘Creio’ sintetiza tudo aquilo que o católico crê

Desde o início de sua vida apostólica, a Igreja elaborou o que passou a ser chamado de “Símbolo dos Apóstolos”, cujo nome é o resumo fiel da fé dos apóstolos de Jesus. Foi uma maneira simples e eficaz de a Igreja exprimir e transmitir a sua fé em fórmulas breves e normativas para todos. Em seus doze artigos, o ‘Creio’ sintetiza tudo aquilo que o católico crê. Este é como “o mais antigo Catecismo romano”. É o antigo símbolo batismal da Igreja de Roma.

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Os grandes santos doutores da Igreja falaram muito do ‘Credo’. Santo Ireneu (140-202), na sua obra contra os hereges gnósticos, escreveu: “A Igreja, espalhada hoje pelo mundo inteiro, recebeu dos apóstolos e de seus discípulos a fé num só Deus, Pai e Onipotente, que fez o céu e a terra (…). Essa é a doutrina que a Igreja recebeu; e esta é a fé, que mesmo dispersa no mundo inteiro, a Igreja guarda com zelo e cuidado, como se tivesse a sua sede numa única casa. E todos são unânimes em crer nela, como se ela tivesse uma só alma e um só coração. Esta fé anuncia, ensina, transmite como se falasse uma só língua.  (Adv. Haer.1,9)

São Cirilo de Jerusalém (315-386), bispo e doutor da Igreja, disse: “Este símbolo da fé não foi elaborado segundo as opiniões humanas, mas da Escritura inteira, de onde se recolheu o que existe de mais importante para dar, na sua totalidade, a única doutrina da fé. E assim como a semente de mostarda contém, em um pequeníssimo grão, um grande número de ramos, da mesma forma este resumo da fé encerra, em algumas palavras, todo o conhecimento da verdadeira piedade contida no Antigo e no Novo Testamento (Catech. ill. 5,12)

Santo Ambrósio (340-397), bispo de Milão, doutor da Igreja que batizou Santo Agostinho, mostra de onde vem a autoridade do ‘Símbolo dos Apóstolos’, e a sua importância:

“Ele é o símbolo guardado pela Igreja Romana, aquela onde Pedro, o primeiro dos apóstolos, teve a sua Sé e para onde ele trouxe a comum expressão da fé” (CIC §194).”Este símbolo é o selo espiritual, a mediação do nosso coração e o guardião sempre presente; ele é seguramente o tesouro da nossa alma” (CIC §197). Os seus doze artigos, segundo uma tradição atestada por Santo Ambrósio, simbolizam com o número dos apóstolos o conjunto da fé apostólica (cf. CIC §191).
O símbolo da fé, o ‘Credo’, é a “identificação” do católico. Assim, ele é professado solenemente no dia do Senhor, no batismo e em outras oportunidades. Todo católico precisa conhecê-lo com profundidade.

Por causa das heresias trinitárias e cristológicas que agitaram a Igreja nos séculos II, III e IV, ela foi obrigada a realizar concílios ecumênicos (universais) para dissipar os erros dos hereges. Os mais importantes para definir os dogmas básicos da fé cristã foram os Concílios de Nicéia (325) e Constantinopla I (381). O primeiro condenou o arianismo, de Ário, sacerdote de Alexandria que negava a divindade de Jesus; o segundo condenou o macedonismo, de Macedônio, patriarca de Constantinopla que negava a divindade do Espírito Santo.

Desses dois importantes Concílios originou-se o ‘Credo’ chamado “Niceno-constantinopolitano”, o qual traz os mesmos artigos da fé do ‘Símbolo dos Apóstolos’, porém de maneira mais explícita e detalhada, especialmente no que se refere às Pessoas divinas de Jesus e do Espírito Santo.

Além desses dois símbolos da fé mais importantes, outros ‘Credos’ foram elaborados ao longo dos séculos, sempre em resposta a determinadas dificuldades ou dúvidas vividas nas Igrejas Apostólicas antigas. Um exemplo é o símbolo “Quicumque”, dito de Santo Atanásio (295-373), bispo de Alexandria; as profissões de fé dos Concílios de Toledo, Latrão, Lião, Trento e também de certos Pontífices como a do Papa Dâmaso e do Papa Paulo VI (1968).

O Catecismo da Igreja nos diz que: “Nenhum dos símbolos das diferentes etapas da vida da Igreja pode ser considerado como ultrapassado e inútil. Eles nos ajudam a tocar e a aprofundar, hoje, a fé de sempre por meio dos diversos resumos que dela têm sido feitos” (CIC § 193).

O Papa Paulo VI achou oportuno fazer uma solene Profissão de Fé no encerramento do “Ano da Fé” de 1968. O Papa Paulo VI quis colocá-lo como um farol e uma âncora para a Igreja caminhar nos tempos difíceis que vivemos, por entre tantas falsas doutrinas e falsos profetas, que se misturam sorrateiramente como o joio no meio do trigo, mesmo dentro da Igreja.

Paulo VI falou, na época, daqueles que atentam “contra os ensinamentos da doutrina cristã”, causando “perturbação e perplexidade em muitas almas fiéis”. Preocupava o Papa as “hipóteses arbitrárias” e subjetivas que são usadas por alguns, mesmo teólogos, para uma interpretação da revelação divina, em discordância da autêntica interpretação dada pelo Magistério da Igreja.

Sabemos que é a Verdade que nos leva à salvação (cf. CIC §851). São Paulo fala da “sã doutrina da salvação” (2 Tm 4,7) e afirma que “Deus quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4); e “a Igreja é a coluna e o fundamento da verdade” (1Tm 3,15).

(Fonte)

domingo, 25 de janeiro de 2015

Papa ficou triste com interpretações equivocadas sobre a família

Com surpresa e tristeza: assim reagiu o Papa Francisco após a repercussão de sua declaração sobre a paternidade responsável

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O substituto da Secretaria de Estado do Vaticano, Dom Angelo Becciu, em entrevista ao jornal italiano Avvenire, revelou que o Papa sentiu-se surpreso e triste diante das repercussões de sua declaração sobre a paternidade responsável, durante a coletiva de imprensa no voo de volta a Roma, após a visita às Filipinas.

O Arcebispo Becciu, um dos mais próximos colaboradores do Papa – e que estava presente no encontro com os jornalistas -, disse que Francisco se sentiu surpreso ao ler os jornais do dia seguinte nos quais “as suas palavras, voluntariamente expressas com a linguagem de todos os dias, não foram plenamente contextualizadas”. Segundo o bispo, Francisco teria ainda expressado sua tristeza “pela desorientação” causada especialmente às famílias numerosas.

“A frase do Papa deve ser interpretada no sentido de que o ato de procriação no homem não pode seguir a lógica do instinto animal, mas deve ser fruto de um ato responsável com raízes no amor e na doação recíproca de si mesmo. Infelizmente, com muita frequência, a cultura contemporânea tende a diminuir a autêntica beleza e o valor do amor conjugal, com todas as consequências negativas que disso derivam”, disse Dom Becciu.

Segundo o bispo, uma interpretação correta sobre a paternidade responsável deve ser feita à luz da Humanae Vitae, encíclica escrita pelo Papa Paulo VI, neste sentido: “sem jamais dividir o caráter unitivo e procriativo do ato sexual, este deve se inserir sempre na lógica do amor na medida que a pessoa como um todo (física, moral e espiritual) abre-se ao mistério da doação de si mesma no vínculo do matrimônio”.

Dom Becciu ressalta ainda que não existe um número “ideal” de filhos por casal, negando que o Papa teria expresso um conceito taxativo de “três filhos por casal”.  “O número três refere-se unicamente à quantidade mínima indicada pela sociologia e demografia para assegurar a estabilidade da população. De nenhuma maneira o Papa quis indicar que representasse o número ‘justo’ de filhos para cada matrimônio. Cada casal cristão, à luz da graça, é chamado a discernir de acordo com uma série de parâmetros humanos e divinos aquele que seria o número de filhos que deve ter”, completou o arcebispo.

Diante da “desorientação” provocada nas famílias numerosas à frente das versões fornecidas pelos jornais, Dom Becciu disse que o Papa ficou “realmente triste” com a inexatidão. “Francisco não queria absolutamente renegar a beleza e o valor das famílias numerosas”, declarou o substituto da Secretaria de Estado, lembrando que na Audiência Geral após o retorno da Viagem Apostólica, Francisco disse que “a vida é sempre um bem e que ter tantos filhos é um dom de Deus para o qual devemos agradecer”.

(FONTE)

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